Reportagem

O fantasma

Fantasma é uma aparição que vive entre o real e o imaginário, num Limbo, região que de acordo com o catolicismo se localiza entre o Céu e o Inferno, onde as almas de crianças que não foram batizadas e as dos pagãos virtuosos encontram-se. Fantasmas pertencem ao imaginário; são impalpáveis reflexos, vultos que atravessam paredes.

O dicionário diz que fantasma é uma imagem ilusória, uma falsa aparência, medonha, apavorante, que pode ser alguém que morreu e reaparece, mas também pode ser objeto ou som ligado a essa pessoa morta. Fantasmas são frutos da imaginação, só existem na fantasia de quem os vê, são simulacros.

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Na cama de outro

Minha confissão causou um colapso na minha existência, assim como a realidade que se fixa quando observada. Repousei o livro sobre a cama, a atenção se interiorizou em acusações e explicações que nunca seriam possíveis. Vaguei no interior de um átomo e feito os elétrons de Niels Bohr, vi a verdade saltar descontinuamente entre consciência e razão. De repente, quando menos esperava, ela escapuliu num motim há muito ensaiado que uníssono me açoitava: adúltera!

Traí uma relação de nove anos, pesava-me a razão. Contudo não me traí, rebatia a consciência. Adultério é aquilo que acontece quando nos recusamos a ouvir o que o corpo tem para dizer. Adultério, ad alterum torum, palavra que vem do latim e significa na cama de outro. Na cama de outro apunhalei pelas costas o que eu era, bicho morto, renasci. 

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A carne consciente: o corpo feminino entre os dogmas do Oriente e os mercados do Ocidente

Em maio de 2021, o mundo colapsava sob o peso da pandemia de Covid-19. O medo operava como o grande arquiteto da vida pública e privada, fragmentando a psique coletiva e reorganizando nossas rotinas em torno do isolamento e da perda. Foi um período fraturado por uma colisão ruidosa: de um lado, a necessária defesa do método científico; de outro, o avanço cego do negacionismo. Nesse fogo cruzado, contudo, operou-se um sutil achatamento epistemológico. Na urgência de blindar a razão contra o obscurantismo, o debate público acabou por empurrar ainda mais para a margem os saberes milenares que não nasceram em laboratórios ocidentais, mas que operam de forma complementar a eles. Sistemas complexos de leitura do corpo, como o Yoga, a Medicina Tradicional Chinesa a Medicina Indigena e as práticas populares de cura, praticadas pelas benzedeiras viram sua sofisticação somática e preventiva ser menorizada, jogada na vala comum da superstição ou sequestrada por uma falsa dicotomia que apagou a potência de sua aliança com a própria ciência. Nesse cenário de desorientação, decidi passar um mês isolada em um ashram em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul.

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