Reportagem

Trabalhador Industrial

Flávio não acreditava que moinhos de vento eram gigantes. Então naquela manhã, seguiu sua rotina de dependurar-se nas hélices de braços longos do resfriador de água da usina para lhe dar manutenção. Foi quando o gigante despertou e o arremessou diversas vezes contra as paredes até arrebentar a corda que o segurava. Rodando feito um saco estropiado, Flávio despencou. Foram doze metros de pregas de ar até espatifar-se no chão.

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Fantasma

O ensaio articula filosofia, literatura e fragmentos narrativos para investigar as intersecções entre o fantasma, a linguagem, o acontecimento e a infância. Através do diálogo com autores como Deleuze, Agamben, Foucault, Lacan e referências mítico-literárias (Orfeu, Eurídice, Ariadne), o texto sustenta que o fantasma habita a fronteira insensível e incorpórea entre o real e o imaginário, atuando como o próprio motor do desejo e condição necessária da inteligência. Ao mesmo tempo, aborda a linguagem não como um mero sistema de representação das coisas, mas como uma experiência trágica nascida da ausência, da dor e do hiato da in-fância — um lugar anterior à palavra que funda a descontinuidade entre a natureza e a história humana, onde a incapacidade de nomear o inefável faz emergir a fissura e o próprio sentido da existência.

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Salvar a empresa, cobrar do cidadão: como a justiça extrajudicial atua nos bastidores de conglomerados envolvidos em corrupção

Promovido pela EMERJ, um seminário jurídico debateu o papel estratégico, os custos e a atuação célere do árbitro de emergência em contratos complexos, fornecendo as bases institucionais para analisar como institutos da justiça extrajudicial e reestruturações corporativas — a exemplo do histórico de conglomerados como a antiga Odebrecht, hoje Novonor — operam nos bastidores para renegociar passivos bilionários, em um cenário onde a eficiência dos mecanismos privados convive com os debates sobre o controle público e os impactos sociais arcados pelo erário.

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Irmandade e o país que produz seus próprios inimigos

artindo da premissa da série Irmandade e do filme Salve Geral: Irmandade, o artigo examina de que maneira o crime organizado e a violência urbana no Brasil não emergem de escolhas individuais ou de vazios morais, mas de uma engrenagem institucional que perpetua desigualdades históricas de matriz escravista. A análise conecta a formação do sistema prisional e o encarceramento em massa a dados macroeconômicos contemporâneos — como a alta inadimplência e o peso da moradia —, demonstrando como o Estado administra a vulnerabilidade social e o trabalho informal por meio de políticas de repressão urbana, a exemplo do programa Tolerância Zero. Fundamentado também na experiência pessoal do autor, o texto desconstrói a divisão binária entre o “criminoso” e o “agente da lei”, revelando que ambos compartilham a mesma origem periférica e são tragados pelo mesmo abandono institucional, que produz tanto o recrutamento pelas facções quanto o adoecimento e a morte de policiais. Por fim, o artigo conclui que a violência enfrentada pelo Estado é sintoma das próprias condições de precarização que ele opta por manter, tornando ineficaz qualquer combate focado apenas nos efeitos enquanto as bases da desigualdade permanecem intocadas.

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Monique Medeiros: Mãe de Henry Borel

Após cinco anos de intensa repercussão e julgamento no Rio de Janeiro, Monique Medeiros foi condenada apenas por omissão na morte de seu filho Henry Borel e recebeu perdão judicial da juíza Elizabeth Machado Louro, que apontou rigor excessivo de gênero e falhas cruciais na acusação. A reportagem investigativa expõe que a condenação é insustentável devido a graves inconsistências técnicas, como lesões decorrentes de manobras de reanimação médica confundidas com agressões, a ausência de análise do prontuário inicial no IML, interferências políticas nos laudos periciais reveladas em mensagens de 2026 e a impossibilidade física de omissão em um convívio de apenas 35 dias com o padrasto.

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Entrevista com o Perito Sami E Jundi – Perito contratado por Jairo de Souza Santos Júnior

A entrevista investiga as lacunas técnicas, institucionais e políticas que atravessam o Caso Henry Borel, a partir da análise pericial e do contexto de poder em que o crime ocorreu. O perito Dr. Sami El Jundi aponta inconsistências médicas e procedimentais no atendimento prestado ao menino no Hospital Barra D’Or. O texto reconstrói as ligações feitas por Jairinho na madrugada da morte, revelando a tentativa de acionar redes de influência fora dos canais formais. A presença de executivos do setor privado da saúde em fóruns jurídicos de alto nível expõe a porosidade entre negócios, regulação e Estado. A entrevista também aborda o papel do Judiciário, as controvérsias em torno da prisão de Monique Medeiros e os questionamentos levantados pela defesa. Mais do que recontar um crime, o material ilumina como engrenagens de poder operam em zonas cinzentas, onde interesses privados, decisões públicas e tragédias individuais se cruzam.

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Calunga Grande

Quando os negros vieram da África para o Brasil, deram ao mar o nome de calunga grande ou grande cemitério. “Porque há um mundo de mortos no fundo do mar”, contava meu avô, mistura de negro com índio dos sertões de Sergipe. Os africanos tinham medo de atravessar o Oceano Atlântico, sabiam que a força da vida é a fúria das ondas, que ao estourar na beira da praia invoca a criação. Era inverno, final de tarde em Ipanema. As ondas arrebentavam na beira da água. Meu peito retumbava em ressaca. O movimento se repetia ao infinito sem pedir licença para existir. Lavava as pedras do arpoador, convocava o fim de angustias. O mundo pertencia às ondas. Deus era um ser feito de água. Fechei os olhos e mergulhei. Queria ser onda e beber deus. Mas deus se bebe? Tirei a roupa molhada e deitei sobre as águas. Fechei os olhos e virei uma borboleta a pisar numa imensa flor e com a ponta dos dedos senti o doce da margarida. Fui me afastando, a praia ia lá longe, o corpo aqui perto a boiar. Virei as costas para o céu. Queria o silencio das águas. Faltou-me fôlego, insisti mais um pouco e sem perceber, livrei-me dos sentidos. “Há flores que nascem para morrer”, dizia a florista diante do vaso de margaridinhas. Tive o corpo atravessado por luzes pontiagudas que faziam cócegas pela barriga, peito e pernas. Crianças corriam ao meu redor, fazendo o tecido de minhas asas de borboleta balançarem. Os pequenos riam, e fui tomada por essa alegria de quem vira vento de tão leve. E então, vomitei._ Aqui diz que ela é de São Paulo. O desconhecido segurava minha carteira de motorista.São Paulo, mar de concreto, com ruas e avenidas a bombear sangue para o coração de seus Dom Quixotes. No Rio é diferente, vira-se São Jorge para guerrear, embrenhar-se nas matas que se insubordinam a cidade. Deuses diferentes a engolir seus seguidores. Meu corpo lutava para encontrar a divindade dentro de mim. O gosto de água salgada veio à garganta. Engoli. Sim, se bebe deus. O enjôo passou e fui arrebatada. Tudo ficou dourado e o verde brilhava, margaridascresciam e tomavam muros, calçadas, postes, cobriam tudo o que era mar. “Santa mãe de deus”, eu pensava, tentando evitar o mergulho. E então caí num balanço sereno que acalmava os pensamentos. Emergi na praia do inverno de 1982. O grande peixe estava estendido na areia. Morto. As ondas lambiam-lhe a cauda, explodiam de ferocidade em espuma branca. O peixe nem se mexia, a pele de cinza fosco, corroída em mordida de outros peixes. Olhei abismada sem coragem de tocar. O que poderia matar bicho tão grande? Outras crianças se aproximaram rindo, mas logo o burburinho cessou. Ninguém dizia uma só palavra. Tudo era silêncio e o peixe esticado na areia. Velávamos. Meu avô se aproximou e com uma faca abriu a barriga do peixe. De dentro da pele grossa saltaram golfinhos lustrosos feito tripas, que logo tomaram o caminho do mar. Pequenos pés sambavam sobre a lama de areia e sangue. Renascíamos no vermelho.Meu avô despiu-se e foi banhar-se na água. E no fundo ele ficou, onde os pés não alcançam o chão e a correnteza massageia o corpo cansado.Parei na beira da água e chorei.Trinta anos depois, naquela mesma praia não havia mais força para erguer a cabeça. Restavam os pés e a areia branca que reluzia sob o sol de verão.Foi quando a nuvem chegou cobrindo todo o calor. O céu se acinzentou até ficar negro como um buraco de poço. As ondas cresceram e engoliram a praia inteira, estenderam-se sobre a calçada. Já não havia mais casas. Tudo era água.Debaixo d`água era difícil de enxergar. A areia havia subido e se misturara a árvores com seus galhos e troncos de raízes arrancadas do chão. Pessoas passeavam ao meu redor, flutuando, sem conseguir falar. O olhar guardava algum desespero, afinal o mundo havia sido engolido. A poeira assentou no fundo do mar e então todos puderam enxergar. Pescadores apareceram. Meu avô era um deles. O peixe grande veio logo atrás e com sua bocadevorou-lhes pernas, braços, parte do tronco. Só ficaram as cabeças. Olhei firme para o meu avô. Ele sorriu e foi afundando no mar. Repletos de água, meus pulmões não retinham mais ar algum. Morri assim, com água nos pulmões. “Era o dilúvio” pensava enquanto morria. Foi então que o peixe grande apareceu na minha frente. Tudo era desamparo. Ele não me comeu. Ficamos lá a nós olhar, sem nosreconhecer. “Queria mesmo um casaco fino de mangas bem compridas”. Foi o que pedi ao peixe pouco antes dele me engolir._ Ela está tossindo sangue. Deve ter batido a cabeça em alguma pedra. Dois enfermeirossuspenderam-me do ar para a maca. Senti os ossos rangerem e um líquido viscoso escorrer nuca abaixo.“Há flores que nascem para morrer”, voltava a voz da florista. Seis meses depois, de volta a praia de Ipanema, olhava a borboleta a brincar no vaso de flores. Margaridinhas.Não se vive a deriva no mar, nele tudo é fúria, criação.

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Primeiro Julgamento do Caso Johnatha de Oliveira

Foi uma pancada. A sensação de impotência tomou conta da plenária quando a juíza Tula Corrêa de Mello leu o veredito do Caso Johnatha de Oliveira. Passava das 18h da tarde de uma quarta-feira, 6 de março. Após dez anos de espera, dois dias de julgamento e duas horas e vinte minutos na elaboração da sentença, Ana Paula de Oliveira viu o assassino de seu filho ser condenado e mesmo assim sair livre do tribunal. O júri popular entendeu que o policial militar Alessandro Marcelino de Souza não teve intenção de matar quando disparou sua pistola .40 acertando Johnatha de Oliveira pelas costas. O jovem tinha, então, 19 anos e retornava da casa da avó, cumprindo a tarefa de lhe entregar um pavê de chocolate feito pela mãe. Ao entrar na rua São Daniel, bairro de Manguinhos, deparou-se com um conflito entre moradores e integrantes da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Não teve tempo de se abrigar quando ouviu a moradora Fátima dos Santos Pinho de Menezes lhe dizer para voltar, porque “a situação aqui não está boa”. Fátima, que também foi uma das testemunhas no julgamento, só teve tempo de puxar o próprio filho e sair da linha de tiro do policial. Testemunhar aquilo foi um choque tremendo, já que ela própria um ano antes, no dia 17 de outubro de 2013, teve o filho espancado e depois asfixiado até a morte por policiais da UPP. Motivo pelo qual o seu testemunho em julgamento foi colocado em xeque: vingança, disparou o advogado de defesa do policial, Dr. Lenio dos Santos Correa. A tese subsidiária de culpa consciente foi aventada por Lenio nos últimos segundos das argumentações finais do julgamento. Inovar em tréplica lançando mão de um conceito tão complexo soou como uma estratégia desleal. O que não passou despercebido pela promotora do caso, Bianca Chagas, que pediu para constar nos autos. Contudo, a juíza Tula acatou o pedido, temerosa de que posteriormente todo o processo fosse anulado. Talvez por esse motivo, o notório constrangimento dela ao ler a sentença: Alessandro Marcelino de Souza é culpado e sai livre. Tula atua no sistema judiciário fluminense há 20 anos, a maioria deles na área criminal. Não é difícil para um leigo descobrir que o Tribunal do Júri é acionado em casos de crimes dolosos ou intencionais contra a vida. Seria, então, plausível supor que tamanha experiência a tornaria apta a prever que uma vez aceita a tese de culpa consciente, em um crime cometido por militar, o caso declinaria para a auditoria da Justiça Militar, como de fato ocorreu? Só é possível especular sobre a capacidade cognitiva da juíza. Mas é fato que a linha que separa o dolo eventual da culpa consciente é muito tênue. E também é motivo de intensos debates entre iniciados no direito. Para termos uma ideia do quão delicada é essa fronteira, no dolo eventual, supõe-se que o agente prevê a possibilidade da ocorrência de um resultado não desejado e assume o risco. Na culpa consciente, o agente realizaria a conduta, prevendo o resultado, mas acreditando na sua não-ocorrência. Em tese, a linha que os separa é a tolerância ou intolerância ao resultado previsto. Seria realmente incrível que o júri, formado por leigos, pudesse dar conta das minúcias de tema tão complexo em duas horas e vinte minutos, tempo que levou para tomar a decisão.  Fica a pergunta: a garantia do sucesso da artimanha da defesa do assassino de Johnatha estaria garantida se a juíza Tula não tivesse aceitado a tese subsidiária? Talvez, mas é difícil prever. O próprio advogado de acusação, Dr. Luís Henrique Zouein, declarou logo após o término do julgamento, que as chances de anulação seriam de 50%. “Qualquer um no lugar dela teria quesitado o pedido”,  afirma ele. E ademais, ele segue explicando, não seria sensato esperar que um juiz trabalhasse prevendo resultados. E de fato, o papel do juiz é presidir a sessão e dirigir os debates, intervindo em caso de abuso, excesso de linguagem ou mediante requerimento de uma das partes, fazendo a lei ser respeitada. A magistrada cumpriu com sua função, mas ela fez a lei ser respeitada? Novamente, só nos resta especular. Quando questionado sobre qual seria o pior cenário: anulação do julgamento ou o caso passar para a auditoria da Justiça Militar, como aconteceu, Dr. Zouein responde elencando os próximos passos da acusação: anular o julgamento e insistir no dolo. Primeiro porque em casos de crimes culposos, o Estado perde o direito de aplicar a pena ou de executá-la muito mais rápido, de um a três anos de detenção. A prescrição, como é nomeado esse dispositivo legal, é sempre determinada diante da pena. Se mantida a culpa consciente, a pena cairia e o direito de punição se extinguiria em cerca de dois anos. Diante da morosidade da justiça, as chances de o assassino de Johnatha sair livre são enormes. Ao insistir no dolo, a prescrição ficaria entre 16 e 20 anos. Ganhar tempo hábil para que a justiça ocorra é um cuidado cabal. Segundo porque, se condenado por dolo, o policial militar Alessandro Marcelino de Souza pode perder o cargo, e sair das ruas, deixando de ser uma ameaça a população. É importante lembrar que Marcelino já foi preso por triplo homicídio em 2013, crime que aconteceu em Queimados, Baixada Fluminense. Ele foi preso, foi solto, e em 2014 assassinou Johnatha.  Quanto tempo mais Ana Paula vai esperar para conseguir justiça para o crime bárbaro que levou a vida de seu filho é um mistério. Tão grande e profundo quanto a força avassaladora que fez com que essa mãe, um dia após ver o assassino de Johnatha sair livre do julgamento, se prostrar na porta do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e seguir protestando.  – Saí ontem do Tribunal de Justiça muito devastada, muito arrasada. E ouvi de algumas mães: vamos fazer um ato amanhã em frente ao Tribunal porque isso é inaceitável. É inaceitável que um policial atire e tire a vida de nossos

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O policial do Core, marido da juiza do Caso Johnatha

Foto tirada em novembro de 2022. João Pedro Marquini (CORE), a juíza Tula Corrêa de Melo (à esquerda) em festa de Natal na casa de Marcelo Simões Mesqueu (à direita), o Marcelo Cupim, denunciado na Operação Fim da Linha em 2022. Cupim foi preso em 2023, solto pelo STJ e no dia 30 de julho de 2025, foi preso novamente. Agora pela morte de Haylton Escafura. O crime aconteceu no dia 14 de Junho de 2017. O corpo do bicheiro foi encontrado e sua namorada, a soldado Franciene de Souza, 27 anos, em um dos quartos do Hotel Transamérica, na Barra da Tijuca, Zona Oeste. Haylton é filho do bicheiro José Caruzzo Escafura, o Piruinha.

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Petrolão da Saúde

O diretor-geral do Instituto Nacional de Câncer (INCA), Roberto de Almeida Gil, é acusado por um servidor de carreira de manter um grave conflito de interesses envolvendo a Oncoclínicas&Co — empresa do setor oncológico que presta serviços ao poder público e tem como um de seus principais financiadores o Banco Master. Segundo a denúncia, Gil, que declarou em entrevista ser fundador e acionista da empresa, teria usado sua posição à frente do principal órgão federal de combate ao câncer para favorecer interesses privados, em um arranjo que envolve uso de informação privilegiada e captura institucional.

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