No ano de 2007, três trabalhadores morreram em dois meses (30/06 a 30/08) na Cosipa; entre eles, Flávio Roberto da Silva Batista, de 26 anos. Todos eram vinculados a terceirizadas e atuavam nas piores e mais insalubres áreas da usina, com salários que correspondiam à metade daquele pago pela Cosipa.
Por Sindia Santos
O acidente
Flávio não acreditava que moinhos de vento eram gigantes. Então, naquela manhã, seguiu sua rotina de pendurar-se nas hélices de braços longos do resfriador de água da usina para lhe dar manutenção. Foi quando o gigante despertou e o arremessou diversas vezes contra as paredes, até arrebentar a corda que o segurava. Rodando feito um saco estropiado, Flávio despencou. Foram doze metros de pregas de ar até espatifar-se no chão.
Despertou-morto, assustado com o tempo o chacoalhando. Seria advertido por interromper o trabalho, por não contar com esse acidente na análise de risco; bastava olhar as feições assustadas de seus companheiros de trabalho para perceber que estava em má situação — talvez fosse até demitido.
Levantou-se depressa, com o tempo lhe pisando os calcanhares, e pôs-se a caminhar; mas, por alguma razão, feito o avesso dos ponteiros do relógio, seguia em sentido contrário ao que se predispunha. Mais uma tentativa, e lá ia ele na contramão. Uma olhadela para baixo e avistou calcanhares ao invés dos dedos dos pés; mais para cima, viu a própria bunda. Girou no eixo e tudo continuava fora do lugar. Então, Flávio se deu conta de que o quadril estava do avesso.
Fuga da usina
A ambulância chegou e, na tentativa de ir ao encontro dos enfermeiros e explicar que tudo estava bem, ele se afastou como que às pressas.
— Está desorientado, a pancada lhe afetou a cabeça! — disse o enfermeiro magro e alto.
— Não podemos deixá-lo dormir — advertiu o pançudo e baixo.
Flávio foi jogado sobre a maca. Batimento cardíaco, pressão, tudo anormal.
— O senhor sente alguma dor? — inquiria o gordo enquanto lhe apalpava as costelas.
— Não.
Os agentes de saúde se entreolharam. Mais uma pergunta:
— O senhor poderia nos dizer o que aconteceu?
— Bem, despenquei lá de cima…
Mal terminou a frase e de novo Flávio caía, tentava andar, ia ao contrário e dava-se conta do quadril do avesso; os enfermeiros chegavam e de novo as perguntas. Era um círculo vicioso, problema sem solução. Então, quando Flávio despencou pela quinta vez, resolveu sair dali. Sabia que, se corresse para a frente, iria para trás; então pôs-se a correr para trás para seguir para a frente.
Alcançou os portões da usina. Estranhamente, todos percebiam o andar desajeitado, mas ninguém perguntava coisa alguma. Na medida em que se afastava do emaranhado cinzento e infinito de ferro, gases e poeira, os passos ficavam mais largos e logo Flávio estava em casa. Seu pai assistia ao noticiário da tarde sentado no sofá esburacado:
“Uma pessoa morreu e outra ficou ferida ao caírem da plataforma em que trabalhavam em Cubatão. Flávio Roberto da Silva Batista, de 26 anos, morreu no local e Anderson Benedito Ferreira, de 30, foi levado para o hospital.”
Flávio estava morto.
Dar a notícia ao pai
O velho levantou-se e desligou a tevê. Virou-se para a ex-esposa e perguntou sobre a notícia da televisão.
— Disseram o nome do Flávio — ele arguiu diante da negativa.
— Confundiram com outra pessoa… — a mãe de Flávio chorava, lenta de calmantes.
Passava das seis e meia da manhã quando Vanessa, irmã mais nova de Flávio, chegou à casa onde ele costumava morar com a mãe, a esposa e a filha de três anos. Sentada no sofá velho, ela via a mãe caminhar perdida pela cozinha, sem encontrar o pó de café que se tornava urgente diante da água que fervia.
Vanessa passara a noite inteira ao lado do corpo do irmão no velório e agora tinha a tarefa difícil de dar a notícia da morte ao pai que, embora desconfiasse, ainda não sabia.
Os filhos de Jaqueline, a irmã mais velha da família, acabavam de acordar de uma noite atípica em que dormiram fora de casa. Naquela manhã também não iriam para a escola: tinham que enterrar o tio.
Vanessa acenou para que o pai sentasse ao seu lado e lhe entregou um copo de água e um calmante.
— Pai, o senhor sabe o que vou lhe contar, não é? O Flávio morreu ontem. O corpo foi velado de madrugada. Vamos enterrá-lo daqui a uma hora.
O relógio marcava sete da manhã. A mãe finalmente terminara de fazer o café. As crianças sentavam-se pelo chão carregando xícara e pão. Com o rosto escondido entre as mãos, o pai chorava miúdo, numa resignação abafada. Insistia em não acreditar no que a filha lhe dizia:
— Erraram o nome, não erraram?…
Vanessa queria dizer que sim, mas passara a madrugada desconhecendo o corpo retorcido do irmão.
— A bacia dele está quebrada… O osso está do avesso por baixo da roupa. Seu rosto foi reconstruído, o calor já está abrindo furos na resina.
O enterro
Havia uma mesa posta sob a árvore do quintal da mansão em que morava, no Bairro do Guaiúba, na cidade de Guarujá. Sentado, o Sr. Dercy apoiava os cotovelos nos filhos enrijecidos e na esposa que escorria oleosa, tentando escapar do peso que a oprimia.
— Não vou ao enterro! — disse ele.
— Está certo. Eles podem estar enfurecidos! — concordou a esposa.
O filho mais novo queimava em lágrimas entupidas. Os três mais velhos comiam sem parar de suar. Todos engordavam dia após dia naquela mesa comprida de onde não paravam de brotar pães, macarrão, coca-cola e pizza.
Sr. Dercy era o chefe da casa, dono da empresa onde Flávio trabalhava; vivia tão cheio do desejo de vencer que minhocas lhe entupiam a boca de ideias, saíam atravessadas pelo nariz, escapavam pelo canto dos olhos.
Naquele dia, estava decidido a não deixar a morte de Flávio lhe tomar mais um dia de trabalho. Havia uma usina a ser alimentada e a rotina não podia estancar. Ele levantou-se apressado, com o tempo lhe apertando os passos. Sua BMW o esperava no portão; tentou alcançá-la, mas, ao invés de se aproximar, se afastava e acabou chegando ao terreno onde construíra sua primeira casa. Pôde assistir à esposa contar à vizinha:
— Todo dia ele chega do trabalho e se põe a medir o terreno. Não entendo de onde tira a ideia de que conseguirá construir três quartos, sala, banheiro, cozinha nesse terreno que levamos a vida toda para comprar.
Era um tempo em que a esposa o amava de incompreensão e ainda não se escondia no quarto, absorta do mundo, desinteressada de tudo. Ele caminhou até o terreno e tocou o chão:
— A sala vai ser aqui…
Levantou-se decidido a se desvencilhar dos fios daquelas lembranças, mas, ao invés de ir para a frente, ele seguiu para trás e as lembranças o estrangularam. Rasgado em diversos pedaços, ele tentou se reconstruir e então se deu conta de que seu quadril estava enviesado. Correu em desespero e chegou ao velório, onde as mãos de uma menina de cabelos longos e olhos risonhos já o alcançavam. Ele não a conhecia, mas seus dedos longos passaram a abotoar botão por botão do casaco de lã que ele usava. Com a mão enleada à dele, ela o guiou até a entrada do velório, onde se afastou e foi ter com a mãe, Jaqueline, que se despedia do corpo do irmão.
Ele quis se afastar, mas acabou por se juntar aos familiares. Jaqueline o olhava implodida; sua presença era escombros da manhã anterior, quando um funcionário fora até a sua casa e lhe dera a notícia da morte do irmão mais novo.
— Vocês mataram meu irmão?! Ele foi trabalhar e vocês o mataram! Não… não entra na minha casa! Saia daqui! — ela empurrava o funcionário que, vencido pelos safanões, logo se afastou.
Ali no velório, Jaqueline sequer esboçava um sinal de raiva. Era toda desamparo, já consciente de que bem algum poderia reparar aquele mal.
Sr. Dercy viu o corpo de Flávio deixar a sala e ser enterrado na campa que ele comprara às pressas na noite passada. Descorçoado, embrenhou-se nas ruas do cemitério. Já era noite e ele sabia que nunca mais conseguiria voltar para casa.
A empresa onde Flávio trabalhara faliu anos depois. O Sr. Dercy e a família migraram para a especulação imobiliária. A mãe de Flávio ficou sem ter onde morar. Na casa do Sr. Dercy ninguém mais é feliz.
