Irmandade e o país que produz seus próprios inimigos
Criada por Pedro Morelli e produzida pela O2 Filmes para a Netflix, a série Irmandade (2019–2022) — cuja narrativa se expande agora no longa-metragem Salve Geral: Irmandade (2026), com roteiro de Julia Furrer e Pedro Morelli — recusa a explicação mais confortável para a violência: a de que ela nasce simplesmente da existência de homens maus. Ambientada no sistema prisional paulista da década de 1990, numa evidente referência ao surgimento do Primeiro Comando da Capital (PCC), a série acompanha a formação de uma organização criminosa dentro de um presídio. O filme desloca essa história para maio de 2006, quando a ordem do chamado “Salve Geral” paralisou São Paulo por meio de ataques coordenados contra agentes públicos e equipamentos do Estado.
Ao conectar esses dois momentos históricos, Irmandade desloca a tradicional oposição entre polícia e criminoso para formular uma pergunta mais incômoda: de que maneira o próprio Estado participou da construção das condições que permitiram o surgimento e a consolidação das facções? A força da narrativa está justamente em deslocar o problema do indivíduo para as instituições e em sugerir que o crime organizado não emerge num vazio moral, mas no interior de uma sociedade profundamente desigual, cujo sistema prisional reproduz violência, superlotação, ausência de direitos e abandono estatal.
É justamente aí que a série deixa de ser apenas uma obra de ficção. Sua maior qualidade não está na reconstrução histórica do nascimento do PCC, mas na capacidade de deslocar o olhar do espectador. Em vez de perguntar apenas como derrotar uma facção criminosa, Irmandade convida a uma investigação mais desconfortável: que sociedade produz organizações como essa? Quais condições econômicas, sociais e políticas tornam possível que milhares de pessoas encontrem nessas organizações algo que o Estado nunca lhes ofereceu?
Responder a essa pergunta exige abandonar uma narrativa sedutora, segundo a qual a violência brasileira seria resultado exclusivo de escolhas individuais. Essa hipótese talvez explique um criminoso. Não explica a permanência do fenômeno durante décadas, sua expansão territorial nem sua capacidade de recrutar sucessivas gerações de jovens. Quando uma organização cresce, sobrevive e se fortalece apesar da repressão permanente, a pergunta deixa de ser apenas quem são seus integrantes. A pergunta passa a ser que tipo de país continua produzindo, geração após geração, as condições para que eles existam.
A força de Irmandade está justamente em impedir que essa pergunta seja encerrada quando os créditos sobem. A série não romantiza facções criminosas. Tampouco permite que elas sejam tratadas como uma anomalia produzida apenas por indivíduos moralmente desviantes. Ao deslocar a narrativa para dentro de uma desigualdade social profunda, evidenciada por um sistema prisional que concentra pessoas pobres e negras, e mostrar o nascimento de uma organização criminosa como parte de uma engrenagem institucional, ela devolve ao espectador uma questão que ultrapassa a ficção: como um país que convive e organiza parte de sua população?
Há décadas, o Brasil governa uma parcela significativa de seus cidadãos de maneira a guardar continuidades históricas com sua formação escravista. Mudaram as leis, mudaram os instrumentos e mudaram as formas de controle; a lógica da hierarquização social, entretanto, preservou características difíceis de ignorar. Não se trata de afirmar que a escravidão se reproduz sob as mesmas formas, mas que algumas estruturas de desigualdade, racialização e disponibilidade de corpos para trabalhos precários atravessaram a abolição e permaneceram reorganizadas no capitalismo brasileiro. A escravidão foi abolida juridicamente em 1888, mas a República jamais construiu um projeto consistente de incorporação econômica e política da população negra recém-liberta. Em vez disso, consolidou-se um modelo de desenvolvimento apoiado na abundância de mão de obra barata, na precariedade do trabalho, na segregação territorial e, mais recentemente, no encarceramento em massa.
Os números da violência ajudam a compreender esse processo. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e o Atlas da Violência, o Brasil registra, ano após ano, mais de quarenta mil mortes violentas intencionais. Mais da metade das vítimas são jovens entre 15 e 29 anos, e cerca de 77% são pessoas negras. Esses dados não descrevem apenas uma crise de segurança pública. Eles revelam quais grupos sociais permanecem mais expostos à morte prematura e quais territórios continuam sendo administrados prioritariamente pela lógica da repressão.
Mas os números da violência contam apenas parte da história. Há outra estatística, menos visível, que ajuda a compreender por que esse modelo se perpetua. Em 2026, mais de 83 milhões de brasileiros estavam inadimplentes — pouco mais da metade da população adulta do país. Eram cerca de 345 milhões de dívidas em aberto, somando aproximadamente R$ 579 bilhões. O crédito, que durante décadas foi apresentado como instrumento de ascensão social, tornou-se para milhões de famílias um mecanismo de sobrevivência cotidiana. Trabalha-se para pagar dívidas; contraem-se novas dívidas para continuar trabalhando.
A moradia ocupa posição central nessa engrenagem. Pesquisas recentes mostram que ela figura entre as principais despesas das famílias brasileiras. Uma parcela significativa dos entrevistados afirma que os custos da habitação comprometem diretamente sua qualidade de vida, enquanto muitos já recorreram a empréstimos ou ao cartão de crédito para conseguir manter aluguel, contas básicas ou despesas domésticas. O problema deixa de ser apenas econômico. Quando a renda deixa de garantir autonomia e passa apenas a impedir um colapso imediato, instala-se uma forma permanente de vulnerabilidade.
Não observo essa economia apenas como jornalista. Para sobreviver, dou aulas por R$ 40 a hora. Não consigo pagar sozinha o aluguel da cidade onde moro. Divido um apartamento de pouco mais de cinquenta metros quadrados e durmo no antigo quarto de serviço. Ainda assim, reconheço meu privilégio: moro na Zona Sul do Rio de Janeiro. A intensidade cotidiana dessa guerra não atravessa a minha janela. Ela atravessa a das mães da Penha, do Complexo do Alemão, da Maré e de tantas outras periferias brasileiras.
É dessas comunidades que saem muitos dos trabalhadores informais responsáveis por manter as cidades funcionando. É delas que saem boa parte dos jovens recrutados pelas facções criminosas. É delas, também, que vêm muitos dos homens e mulheres que ingressam nas polícias Civil e Militar. As periferias fornecem corpos que ocupam diferentes posições dentro dessa engrenagem. O uniforme muda. A origem social, muitas vezes, permanece a mesma.
Essa mesma engrenagem que produz a morte de jovens nas periferias também produz o adoecimento daqueles que o Estado envia para combatê-la. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio mostram que o Brasil registra, ano após ano, entre 120 e 140 suicídios de policiais. A taxa de autoextermínio entre policiais civis e militares é diversas vezes superior à da população em geral e, em diferentes períodos, supera o número de agentes mortos em confrontos diretos. A guerra produz vítimas em diferentes posições desse mesmo sistema; o abandono institucional também.
O caso do delegado Bernardo Leal tornou visível outra dimensão desse abandono. Ferido por um tiro de fuzil durante a Operação Contenção, em outubro de 2025, Leal teve uma das pernas amputada. Meses depois, ainda aguardava uma prótese definitiva fornecida pelo Estado e dependia da solidariedade de colegas e de campanhas de arrecadação para custear parte de sua reabilitação.
O comandante Felipe Monteiro Marques, piloto do Serviço Aeropolicial, percorreu trajetória semelhante. Baleado na cabeça durante uma operação na Vila Aliança, em março de 2025, passou mais de um ano submetido a um longo processo de reabilitação, sustentado em parte por campanhas promovidas por familiares e amigos para financiar fisioterapia neurofuncional. Morreu em maio de 2026.
A mesma estrutura institucional que fracassa em oferecer perspectivas concretas de futuro para milhares de jovens das periferias demonstra enorme dificuldade em cuidar daqueles que recruta para enfrentá-los. A guerra brasileira produz vítimas em diferentes pontos dessa engrenagem. Talvez seja justamente nesse ponto que a Irmandade caminhe com a realidade de maneira perturbadora: a série e o filme nos fazem perceber que o conflito não opõe simplesmente policiais e criminosos. Ele organiza uma sociedade que distribui funções diferentes a pessoas que, muitas vezes, compartilham a mesma origem social, as mesmas privações e as mesmas ausências do Estado.
Essa engrenagem não opera apenas nos momentos extremos de confronto armado. Ela também aparece nas disputas cotidianas sobre quem pode trabalhar, circular e ocupar a cidade. A fronteira entre ordem pública e sobrevivência econômica torna-se, então, uma das zonas mais tensas da desigualdade brasileira.
Em julho de 2026, a Prefeitura do Rio lançou o programa Tolerância Zero, apresentado como uma política de combate às estruturas econômicas do crime organizado que exploram ilegalmente o espaço público. O objetivo declarado era proteger a ordem urbana e ampliar oportunidades para a formalização do trabalho. A reação de ambulantes e camelôs, contudo, revelou um impasse mais profundo. Sob o lema “Nós queremos trabalhar”, muitos denunciaram que a fiscalização atingia justamente aqueles cuja sobrevivência depende da ocupação do espaço público.
A questão, portanto, ultrapassa a política municipal: quando a informalidade deixa de ser uma escolha e se transforma na única alternativa econômica disponível para milhões de pessoas, onde termina o combate ao crime e onde começa a criminalização da pobreza?
Essa tensão também aparece em Irmandade. Marcel Ferreira, irmão mais novo do Cabuloso, chefe da facção, tenta sobreviver trabalhando legalmente, vendendo cachorro-quente em uma perua. Sua esposa está grávida. Quando o veículo é apreendido, não desaparece apenas um instrumento de trabalho; desaparece a possibilidade de sustentar a família por meios lícitos.
A série não transforma esse episódio em uma tese sociológica. Ela simplesmente acompanha a vida de seus personagens e mostra como decisões institucionais aparentemente burocráticas atravessam trajetórias individuais. Talvez resida aí uma de suas maiores virtudes: revelar que, antes de existir um criminoso, existe alguém tentando encontrar um lugar possível na economia. Quando esse lugar desaparece, o crime deixa de ser explicado apenas pela perversidade individual. Continua sendo uma escolha — e uma escolha moralmente condenável —, mas passa a ocorrer dentro de um horizonte de possibilidades cada vez mais estreito.
É nesse sentido que Irmandade ultrapassa a narrativa policial. Uma facção não nasce apenas dentro de um presídio; ela começa muito antes dele. Começa quando uma sociedade naturaliza a precariedade como destino de milhões de pessoas e reserva ao sistema penal e às forças de segurança a tarefa de administrar os efeitos dessa escolha.
O crime organizado não representa uma forma legítima de resistência — e a série jamais sugere isso. O que ela oferece é uma pergunta mais incômoda: como uma sociedade que produz desigualdade, abandono e ausência de perspectivas pretende combater apenas os seus sintomas? A violência que o Estado enfrenta não surge fora das estruturas sociais brasileiras. Ela também é produzida pelas condições que o próprio Estado permite, mantém ou deixa de transformar.
