Monique Medeiros: Mãe de Henry Borel
Por cinco anos, Monique Medeiros foi vista e tratada como uma criminosa. Dois meses após perder o filho de 4 anos, foi enviada sob custódia para a Cadeia Pública José Frederico Marques, transferida para o Instituto Penal Santo Expedito e depois para a Penitenciária Talavera Bruce — estes dois últimos no Complexo de Gericinó, em Bangu. Durante esse período, foi indiciada por homicídio doloso por omissão e tortura pela morte do próprio filho. Na última semana, após o julgamento mais longo da história recente do Rio de Janeiro, o júri decidiu que ela não teve intenção de matar o filho (homicídio culposo), condenando-a apenas pela omissão. Ainda assim, a juíza Elizabeth Machado Louro concedeu-lhe o perdão judicial. A magistrada entendeu que a condenação que pesou sobre a ré dizia menos sobre o crime e mais sobre o fato de ela ser mulher
No dia seguinte, vídeos de indignação inundaram as redes sociais. Após acompanhar presencialmente os 11 dias do julgamento e investigar os autos desde 2023, esta reportagem levanta os fatos que embasaram a decisão da juíza e revela os problemas que fragilizam a acusação.
As falhas são graves. Faltam dados cruciais, como os logs dos equipamentos de monitoramento em quase duas horas de tentativas de reanimação no Barra D’Or — onde a criança, segundo o hospital, chegou morta. Contudo, o prontuário médico, que só entrou nos autos quase um ano depois (13 de janeiro de 2022), após ser requerido judicialmente em carater de urgencia, apresenta o seguinte quadro: Henry chegou com 76% de oxigenação sanguínea, 34 C° de temperatura, 234 mg/dL de taxa glicêmica. Um estado delicado, que coloca em questão a afirmação de que ele teria chegado morto ao hospital.
Em seguida, Henry foi submetido a uma intubação orotraqueal classificada como difícil, procedimento que, segundo a tese da defesa (de Jairo) fundamentada no parecer do assistente técnico Dr. Sami El Jundi, pode ter causado uma laceração na traqueia e o consequente extravasamento de ar. Esse quadro resultou em um pneumotórax bilateral, exigindo a realização de uma toracocentese — uma punção para retirar o ar da pleura (membrana que reveste os pulmões e o liga à caixa torácica). A complexidade do caso aumenta porque o pneumotórax gera o colapso (murchamento) pulmonar, cujas características macroscópicas podem ser facilmente confundidas com contusões pulmonares decorrentes de agressão. Essa indefinição técnica é agravada pelo fato de o perito oficial ter admitido que não analisou o prontuário médico antes da necropsia, o que fez com que os orifícios da toracocentese passassem ‘despercebidos’ em seu exame inicial, tornando o nexo causal sobre as lesões pulmonares ainda mais nebuloso.
Onde defesa (Jairo), acusação (Leniel), MP (Fabio) e médicas concordam
A lacuna nos registros iniciais abriu espaço para um debate central no processo: a iatrogenia, termo médico para danos causados involuntariamente durante um tratamento. Neste ponto, peritos da acusação, da defesa, do Ministério Público, e as próprias médicas do hospital chegaram a uma conclusão fundamental: 10 das 25 lesões (contando com as duas punções da toracocentese) identificadas no corpo de Henry foram resultado direto das manobras de reanimação.
Tanto os assistentes da defesa quanto o perito oficial admitem que cinco marcas nos lábios e no queixo surgiram do uso de tubos e máscaras de oxigênio, enquanto três furos nos braços e no pescoço decorreram dos acessos venosos necessários para a aplicação de medicamentos. A nona e décima marcas foram produzidas pela toracocentese — o procedimento para retirar o ar dos pulmões, confirmado pelo prontuário hospitalar, embora omitido no laudo inicial. Além disso, ambos os lados concordam que massagens cardíacas intensas e prolongadas — que, no caso de Henry, duraram cerca de duas horas — podem causar o rompimento de órgãos internos. Por fim, peritos de ambos os grupos confirmam que o menino era bem cuidado, não apresentando cicatrizes de agressões passadas ou sinais de maus-tratos antigos.
Embora a própria junta médica diga que ele apresentava poucas e pequenas lesões ao chegar no hospital, o estado em que a criança chegou ao Instituto Médico Legal Afrânio Peixoto, foi diametralmente outro: 23 lesões, sem contar com as duas punções as acima, causadas pela toracocentese. E foi em cima de um corpo disforme que o legista fez toda a sua análise. Atualmente, foi assumido que boa parte das lesões detectadas foram feitas no hospital. Os seis laudos de necropsia, contudo, estão repletos de contradições vitais e ‘erros de digitação’ que trouxeram mais confusão do que esclarecimentos ao caso.
O conversa de Leniel com Gabriela Graça, diretora do IML
Sigmar, policial do Core, amigo do Leniel: “Outra coisa já fechei com a Gabriela, a perita, muito boa, tecnicamente muito boa, professora da UERJ e chefe do ML. Muito boa mesmo, está disponível, totalmente, para ajudar a gente.
A citação acima é de um dos diversos registros de conversas de whatsapp, extraídos através do software cellebrite, em que o pai da criança, Leniel Borel, pede “ajuda” à diretora do IML, Gabriela Graça, que lhe responde o seguinte:
_ Fica tranquilo, eu vou te ajudar, os delegados me pediram. Mas olha, eu vou ficar no anonimato, tá bom? Eu vou ficar no anonimato, não precisa entrar em contato comigo.
Tal diálogo só veio a público em fevereiro deste ano (2026) através de denúncia da jornalista Carla Albuquerque, do canal Investigação Criminal. A situação se agrava ainda mais, quando em depoimento na Audiência de Instrução e Julgamento (2022), o perito que assinou os laudos, Leonardo Huber Tauil, admitiu que a mudança em sua análise — alterando a descrição de lesões com infiltrado inflamatório (feitas em vida) para lesões com aspecto apergaminhado (feitas em morte) — ocorreu após conversa com a mesma diretora.
O contato com a diretora foi feito através de Sigmar xxx, policial do CORE e amigo presente quando Leniel entregou a criança a Monique, no domingo, dia 07, no hospital e IML, no dia 08 de março, quando Henry já estava morto.
Este emaranhado de incertezas técnicas e falhas procedimentais, encontrou na sentença da juíza Elizabeth Machado Louro um contraponto crítico. Para a magistrada, a magnitude da condenação pública e a severidade do escrutínio dos últimos cinco anos não guardam proporcionalidade com a conduta imputada. “Não posso me furtar a expressar meu pasmo diante da reação desproporcional e desmesurada da sociedade, em geral, em face da conduta imputada a Monique”, escreveu Louro.
A juíza confronta o elefante na sala: a questão de gênero. Ao afirmar que, “fosse o pai, e não a mãe, na mesma situação, nem sequer teria sido ele processado”, Louro aponta que o rigor imposto a Monique foi alimentado por um padrão cultural de maternidade que exige, da mulher, a perfeição como salvo-conduto. Para a magistrada, o sistema judicial, sob pressão da opinião pública, acabou por exigir de Monique uma “mãe perfeita”, enquanto ignorava as fragilidades nas provas que deveriam ter sido o único norte do inquérito. O perdão judicial, portanto, não é apenas um desfecho, mas uma crítica a um processo que, aos olhos da magistrada, foi, ele próprio, um exercício de exceção.
Contudo, essa leitura da magistrada esbarra em uma resistência contumaz: a postura do Ministério Público. Apesar da sucessão de incongruências documentadas, a acusação insiste em ignorar as brechas que tornam a tese de omissão não apenas frágil, mas factualmente insustentável. O MP sustenta sua narrativa ignorando, por exemplo, o cronômetro das evidências digitais. Enquanto a denúncia insiste na omissão deliberada, os prints de WhatsApp entre Monique e a babá Thayná de Oliveira, do dia 12 de fevereiro de 2012, em que Jairo teria agredido a criança, revelam uma realidade fática distinta: entre o início da mensagem de alerta enviada pela babá — enquanto Monique estava em um salão de beleza — e a saída de Henry do quarto, transcorreram menos de três minutos. A acusação ignora, ainda, o histórico da própria testemunha-chave: além de acompanhar Henry por pouco menos de 20 dias, a babá chegou a ser acusada de falso testemunho, após prestar quatro depoimentos com versões conflitantes entre si. O único registro documentado das sérias acusações que Thayna faz à mãe de Henry, é o print dessa conversa, onde a babá mesmo acalma Monique dizendo que Henry está bem, após sair do quarto e finaliza a conversa dizendo “termina tudo em paz”.
Outro ponto que fragiliza a omissão é o fato de Monique, Henry e Jairo terem convívio por cerca de 35 dias, do dia 15 de janeiro, quando Henry foi morar no Majestic até o dia 07 de março, descontando os finais de semana que passava na casa dos avós em Bangu e com o pai. Esse número ainda pode cair, haja visto que a avó costumava dormir alguns dias da semana no apartamento na Barra para auxiliar no processo de adaptação da criança diante da separação recente dos pais. Assim, se a investigação do Delegado Henrique Damasceno levou 57 dias para indiciar duas pessoas, tendo um corpo para ancorar o crime, duas denúncias de agressões de ex-parceiras de Jairo, uma equipe de peritos e investigadores, é incongruente esperar que uma civil com pouco mais de um mês de convívio com Jairo e Henry, sem um corpo e nem denúncias de maus tratos anteriores possa se dar conta de um possível comportamento agressivo.
Diante desse quadro, a insistência da promotoria em qualificar o episódio como “omissão contínua e consciente” revela-se menos como uma construção baseada em provas e mais como um esforço de sustentação narrativa, ignorando a impossibilidade física de uma intervenção eficaz naquele exíguo intervalo.
Soma-se a isso, o fato documentado de Monique ter levado Henry no dia 13 de fevereiro para exames no Hospital Real D´OR em Bangu, onde foi constatado que a criança não apresentava lesão alguma, interna ou externa.
