Petrolão da Saúde

O diretor-geral do Instituto Nacional de Câncer (INCA), Roberto de Almeida Gil, é acusado por um servidor de carreira de manter um grave conflito de interesses envolvendo a Oncoclínicas&Co — empresa do setor oncológico que presta serviços ao poder público e tem como um de seus principais financiadores o Banco Master. Segundo a denúncia, Gil, que declarou em entrevista ser fundador e acionista da empresa, teria usado sua posição à frente do principal órgão federal de combate ao câncer para favorecer interesses privados, em um arranjo que envolve uso de informação privilegiada e captura institucional.

Continuar Lendo

A mulher no garimpo: trabalho, medo e sobrevivência na exploração do ouro em Pontes e LacerdaPor Sindia Bugiarda

Entrar no garimpo é como conhecer um outro povo, acessar uma outra cultura, um outro Brasil, mais profundo. Um povo que não é originário, mas originado do abandono do Estado e da necessidade de sobreviver. Em maio, desembarquei na Estação Rodoviária de Pontes e Lacerda, cidade que fica no sudoeste de Mato Grosso, a menos de 500 km de Cuiabá, na fronteira com a Bolívia. Estava ali para entender como vivem as mulheres que trabalham no garimpo ilegal. Era noite de quarta-feira e fazia 16 °C — frio atípico ali. Sob a garoa insistente e entre faróis perdidos no escuro da estrada, surgiram os primeiros contornos de uma cidade encharcada por uma tensão antiga: a disputa pelo direito de explorar o ouro entre mineradoras e garimpeiros. Uma luta histórica, atravessada por questões de gênero, raça e classe.

Continuar Lendo

FIANDEIRA — EPISÓDIO 1 – O nome do filho

No dia 26 de novembro, Ana Paula de Oliveira recebeu, em Genebra, na Suíça, o Prêmio Martin Ennals, considerado o Nobel da área de Direitos Humanos.

O júri reúne algumas das mais importantes organizações não governamentais do mundo, como a Anistia Internacional, a Human Rights Watch, a Federação Internacional de Direitos Humanos e a Front Line Defenders.

Em edições anteriores, o prêmio reconheceu defensores de direitos humanos que atuaram em contextos marcados por conflitos armados, regimes autoritários e repressão estatal — da Ásia ao Oriente Médio, da África à América Latina.

Pela primeira vez desde sua criação, em 1994, o prêmio foi concedido ao Brasil.

Continuar Lendo

Encontro Marcado

A morte não marca data para chegar. Com Alírio não é assim; nos último 13 anos ela sempre chega, ao menos uma vez por dia. Exceto naquela sexta-feira 13 de outubro; naquela noite chuvosa ninguém morreu em Guarujá.

Sentado na cadeira do escritório da única funerária particular da cidade, Alírio acende mais um dos 50 cigarros que costuma fumar num plantão; às suas costas 43 caixões empilhados, ao seu redor paredes brancas enegrecidas pela umidade, que silenciosa arruína o concreto e impõem ao ar um cheiro não aceito pelos pulmões.

Continuar Lendo

Ouvir o silencio

As mãos dançantes estão em toda parte. Quem passa na Rua das Laranjeiras, Zona Sul do Rio, logo percebe. Pontos de ônibus, lanchonetes, bares, lá estão elas a nos hipnotizar. A cadência dos movimentos destoa do barulho atordoante de carros e buzinas do acentuado trânsito do final de tarde. Seguindo-as, chegamos até o Instituto Nacional de Educação de Surdos, o INES. A primeira escola de surdos do Brasil foi criado em 1857 por um francês, também surdo, chamado Eduard Huet.

Durante o primeiro ano de existência, o INES funcionou na Rua dos Beneditinos, no ano seguinte mudou-se para o Morro do Livramento, em seguida para o Palacete do Campo da Aclamação, depois para a Chácara Laranjeiras, e por fim para a Rua Real Grandeza. Somente em 1877 foi transferido para a Rua das Laranjeiras e em 1890 para o atual prédio, no numero 232. Por fora, a imponente construção amarela nem parece uma escola pública, onde estudam 600 dos quase seis milhões de surdos do país. Esse número corresponde 1,2 por centos dos surdos do Estado do Rio de Janeiro.

Continuar Lendo