Calunga Grande

Quando os negros vieram da África para o Brasil, deram ao mar o nome de calunga grande ou grande cemitério. “Porque há um mundo de mortos no fundo do mar”, contava meu avô, mistura de negro com índio dos sertões de Sergipe. Os africanos tinham medo de atravessar o Oceano Atlântico, sabiam que a força da vida é a fúria das ondas, que ao estourar na beira da praia invoca a criação. Era inverno, final de tarde em Ipanema. As ondas arrebentavam na beira da água. Meu peito retumbava em ressaca. O movimento se repetia ao infinito sem pedir licença para existir. Lavava as pedras do arpoador, convocava o fim de angustias. O mundo pertencia às ondas. Deus era um ser feito de água. Fechei os olhos e mergulhei. Queria ser onda e beber deus. Mas deus se bebe? Tirei a roupa molhada e deitei sobre as águas. Fechei os olhos e virei uma borboleta a pisar numa imensa flor e com a ponta dos dedos senti o doce da margarida. Fui me afastando, a praia ia lá longe, o corpo aqui perto a boiar. Virei as costas para o céu. Queria o silencio das águas. Faltou-me fôlego, insisti mais um pouco e sem perceber, livrei-me dos sentidos. “Há flores que nascem para morrer”, dizia a florista diante do vaso de margaridinhas. Tive o corpo atravessado por luzes pontiagudas que faziam cócegas pela barriga, peito e pernas. Crianças corriam ao meu redor, fazendo o tecido de minhas asas de borboleta balançarem. Os pequenos riam, e fui tomada por essa alegria de quem vira vento de tão leve. E então, vomitei._ Aqui diz que ela é de São Paulo. O desconhecido segurava minha carteira de motorista.São Paulo, mar de concreto, com ruas e avenidas a bombear sangue para o coração de seus Dom Quixotes. No Rio é diferente, vira-se São Jorge para guerrear, embrenhar-se nas matas que se insubordinam a cidade. Deuses diferentes a engolir seus seguidores. Meu corpo lutava para encontrar a divindade dentro de mim. O gosto de água salgada veio à garganta. Engoli. Sim, se bebe deus. O enjôo passou e fui arrebatada. Tudo ficou dourado e o verde brilhava, margaridascresciam e tomavam muros, calçadas, postes, cobriam tudo o que era mar. “Santa mãe de deus”, eu pensava, tentando evitar o mergulho. E então caí num balanço sereno que acalmava os pensamentos. Emergi na praia do inverno de 1982. O grande peixe estava estendido na areia. Morto. As ondas lambiam-lhe a cauda, explodiam de ferocidade em espuma branca. O peixe nem se mexia, a pele de cinza fosco, corroída em mordida de outros peixes. Olhei abismada sem coragem de tocar. O que poderia matar bicho tão grande? Outras crianças se aproximaram rindo, mas logo o burburinho cessou. Ninguém dizia uma só palavra. Tudo era silêncio e o peixe esticado na areia. Velávamos. Meu avô se aproximou e com uma faca abriu a barriga do peixe. De dentro da pele grossa saltaram golfinhos lustrosos feito tripas, que logo tomaram o caminho do mar. Pequenos pés sambavam sobre a lama de areia e sangue. Renascíamos no vermelho.Meu avô despiu-se e foi banhar-se na água. E no fundo ele ficou, onde os pés não alcançam o chão e a correnteza massageia o corpo cansado.Parei na beira da água e chorei.Trinta anos depois, naquela mesma praia não havia mais força para erguer a cabeça. Restavam os pés e a areia branca que reluzia sob o sol de verão.Foi quando a nuvem chegou cobrindo todo o calor. O céu se acinzentou até ficar negro como um buraco de poço. As ondas cresceram e engoliram a praia inteira, estenderam-se sobre a calçada. Já não havia mais casas. Tudo era água.Debaixo d`água era difícil de enxergar. A areia havia subido e se misturara a árvores com seus galhos e troncos de raízes arrancadas do chão. Pessoas passeavam ao meu redor, flutuando, sem conseguir falar. O olhar guardava algum desespero, afinal o mundo havia sido engolido. A poeira assentou no fundo do mar e então todos puderam enxergar. Pescadores apareceram. Meu avô era um deles. O peixe grande veio logo atrás e com sua bocadevorou-lhes pernas, braços, parte do tronco. Só ficaram as cabeças. Olhei firme para o meu avô. Ele sorriu e foi afundando no mar. Repletos de água, meus pulmões não retinham mais ar algum. Morri assim, com água nos pulmões. “Era o dilúvio” pensava enquanto morria. Foi então que o peixe grande apareceu na minha frente. Tudo era desamparo. Ele não me comeu. Ficamos lá a nós olhar, sem nosreconhecer. “Queria mesmo um casaco fino de mangas bem compridas”. Foi o que pedi ao peixe pouco antes dele me engolir._ Ela está tossindo sangue. Deve ter batido a cabeça em alguma pedra. Dois enfermeirossuspenderam-me do ar para a maca. Senti os ossos rangerem e um líquido viscoso escorrer nuca abaixo.“Há flores que nascem para morrer”, voltava a voz da florista. Seis meses depois, de volta a praia de Ipanema, olhava a borboleta a brincar no vaso de flores. Margaridinhas.Não se vive a deriva no mar, nele tudo é fúria, criação.

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Primeiro Julgamento do Caso Johnatha de Oliveira

Foi uma pancada. A sensação de impotência tomou conta da plenária quando a juíza Tula Corrêa de Mello leu o veredito do Caso Johnatha de Oliveira. Passava das 18h da tarde de uma quarta-feira, 6 de março. Após dez anos de espera, dois dias de julgamento e duas horas e vinte minutos na elaboração da sentença, Ana Paula de Oliveira viu o assassino de seu filho ser condenado e mesmo assim sair livre do tribunal. O júri popular entendeu que o policial militar Alessandro Marcelino de Souza não teve intenção de matar quando disparou sua pistola .40 acertando Johnatha de Oliveira pelas costas. O jovem tinha, então, 19 anos e retornava da casa da avó, cumprindo a tarefa de lhe entregar um pavê de chocolate feito pela mãe. Ao entrar na rua São Daniel, bairro de Manguinhos, deparou-se com um conflito entre moradores e integrantes da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Não teve tempo de se abrigar quando ouviu a moradora Fátima dos Santos Pinho de Menezes lhe dizer para voltar, porque “a situação aqui não está boa”. Fátima, que também foi uma das testemunhas no julgamento, só teve tempo de puxar o próprio filho e sair da linha de tiro do policial. Testemunhar aquilo foi um choque tremendo, já que ela própria um ano antes, no dia 17 de outubro de 2013, teve o filho espancado e depois asfixiado até a morte por policiais da UPP. Motivo pelo qual o seu testemunho em julgamento foi colocado em xeque: vingança, disparou o advogado de defesa do policial, Dr. Lenio dos Santos Correa. A tese subsidiária de culpa consciente foi aventada por Lenio nos últimos segundos das argumentações finais do julgamento. Inovar em tréplica lançando mão de um conceito tão complexo soou como uma estratégia desleal. O que não passou despercebido pela promotora do caso, Bianca Chagas, que pediu para constar nos autos. Contudo, a juíza Tula acatou o pedido, temerosa de que posteriormente todo o processo fosse anulado. Talvez por esse motivo, o notório constrangimento dela ao ler a sentença: Alessandro Marcelino de Souza é culpado e sai livre. Tula atua no sistema judiciário fluminense há 20 anos, a maioria deles na área criminal. Não é difícil para um leigo descobrir que o Tribunal do Júri é acionado em casos de crimes dolosos ou intencionais contra a vida. Seria, então, plausível supor que tamanha experiência a tornaria apta a prever que uma vez aceita a tese de culpa consciente, em um crime cometido por militar, o caso declinaria para a auditoria da Justiça Militar, como de fato ocorreu? Só é possível especular sobre a capacidade cognitiva da juíza. Mas é fato que a linha que separa o dolo eventual da culpa consciente é muito tênue. E também é motivo de intensos debates entre iniciados no direito. Para termos uma ideia do quão delicada é essa fronteira, no dolo eventual, supõe-se que o agente prevê a possibilidade da ocorrência de um resultado não desejado e assume o risco. Na culpa consciente, o agente realizaria a conduta, prevendo o resultado, mas acreditando na sua não-ocorrência. Em tese, a linha que os separa é a tolerância ou intolerância ao resultado previsto. Seria realmente incrível que o júri, formado por leigos, pudesse dar conta das minúcias de tema tão complexo em duas horas e vinte minutos, tempo que levou para tomar a decisão.  Fica a pergunta: a garantia do sucesso da artimanha da defesa do assassino de Johnatha estaria garantida se a juíza Tula não tivesse aceitado a tese subsidiária? Talvez, mas é difícil prever. O próprio advogado de acusação, Dr. Luís Henrique Zouein, declarou logo após o término do julgamento, que as chances de anulação seriam de 50%. “Qualquer um no lugar dela teria quesitado o pedido”,  afirma ele. E ademais, ele segue explicando, não seria sensato esperar que um juiz trabalhasse prevendo resultados. E de fato, o papel do juiz é presidir a sessão e dirigir os debates, intervindo em caso de abuso, excesso de linguagem ou mediante requerimento de uma das partes, fazendo a lei ser respeitada. A magistrada cumpriu com sua função, mas ela fez a lei ser respeitada? Novamente, só nos resta especular. Quando questionado sobre qual seria o pior cenário: anulação do julgamento ou o caso passar para a auditoria da Justiça Militar, como aconteceu, Dr. Zouein responde elencando os próximos passos da acusação: anular o julgamento e insistir no dolo. Primeiro porque em casos de crimes culposos, o Estado perde o direito de aplicar a pena ou de executá-la muito mais rápido, de um a três anos de detenção. A prescrição, como é nomeado esse dispositivo legal, é sempre determinada diante da pena. Se mantida a culpa consciente, a pena cairia e o direito de punição se extinguiria em cerca de dois anos. Diante da morosidade da justiça, as chances de o assassino de Johnatha sair livre são enormes. Ao insistir no dolo, a prescrição ficaria entre 16 e 20 anos. Ganhar tempo hábil para que a justiça ocorra é um cuidado cabal. Segundo porque, se condenado por dolo, o policial militar Alessandro Marcelino de Souza pode perder o cargo, e sair das ruas, deixando de ser uma ameaça a população. É importante lembrar que Marcelino já foi preso por triplo homicídio em 2013, crime que aconteceu em Queimados, Baixada Fluminense. Ele foi preso, foi solto, e em 2014 assassinou Johnatha.  Quanto tempo mais Ana Paula vai esperar para conseguir justiça para o crime bárbaro que levou a vida de seu filho é um mistério. Tão grande e profundo quanto a força avassaladora que fez com que essa mãe, um dia após ver o assassino de Johnatha sair livre do julgamento, se prostrar na porta do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e seguir protestando.  – Saí ontem do Tribunal de Justiça muito devastada, muito arrasada. E ouvi de algumas mães: vamos fazer um ato amanhã em frente ao Tribunal porque isso é inaceitável. É inaceitável que um policial atire e tire a vida de nossos

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O policial do Core, marido da juiza do Caso Johnatha

Foto tirada em novembro de 2022. João Pedro Marquini (CORE), a juíza Tula Corrêa de Melo (à esquerda) em festa de Natal na casa de Marcelo Simões Mesqueu (à direita), o Marcelo Cupim, denunciado na Operação Fim da Linha em 2022. Cupim foi preso em 2023, solto pelo STJ e no dia 30 de julho de 2025, foi preso novamente. Agora pela morte de Haylton Escafura. O crime aconteceu no dia 14 de Junho de 2017. O corpo do bicheiro foi encontrado e sua namorada, a soldado Franciene de Souza, 27 anos, em um dos quartos do Hotel Transamérica, na Barra da Tijuca, Zona Oeste. Haylton é filho do bicheiro José Caruzzo Escafura, o Piruinha.

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Petrolão da Saúde

O diretor-geral do Instituto Nacional de Câncer (INCA), Roberto de Almeida Gil, é acusado por um servidor de carreira de manter um grave conflito de interesses envolvendo a Oncoclínicas&Co — empresa do setor oncológico que presta serviços ao poder público e tem como um de seus principais financiadores o Banco Master. Segundo a denúncia, Gil, que declarou em entrevista ser fundador e acionista da empresa, teria usado sua posição à frente do principal órgão federal de combate ao câncer para favorecer interesses privados, em um arranjo que envolve uso de informação privilegiada e captura institucional.

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A mulher no garimpo: trabalho, medo e sobrevivência na exploração do ouro em Pontes e LacerdaPor Sindia Bugiarda

Entrar no garimpo é como conhecer um outro povo, acessar uma outra cultura, um outro Brasil, mais profundo. Um povo que não é originário, mas originado do abandono do Estado e da necessidade de sobreviver. Em maio, desembarquei na Estação Rodoviária de Pontes e Lacerda, cidade que fica no sudoeste de Mato Grosso, a menos de 500 km de Cuiabá, na fronteira com a Bolívia. Estava ali para entender como vivem as mulheres que trabalham no garimpo ilegal. Era noite de quarta-feira e fazia 16 °C — frio atípico ali. Sob a garoa insistente e entre faróis perdidos no escuro da estrada, surgiram os primeiros contornos de uma cidade encharcada por uma tensão antiga: a disputa pelo direito de explorar o ouro entre mineradoras e garimpeiros. Uma luta histórica, atravessada por questões de gênero, raça e classe.

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FIANDEIRA — EPISÓDIO 1 – O nome do filho

No dia 26 de novembro, Ana Paula de Oliveira recebeu, em Genebra, na Suíça, o Prêmio Martin Ennals, considerado o Nobel da área de Direitos Humanos.

O júri reúne algumas das mais importantes organizações não governamentais do mundo, como a Anistia Internacional, a Human Rights Watch, a Federação Internacional de Direitos Humanos e a Front Line Defenders.

Em edições anteriores, o prêmio reconheceu defensores de direitos humanos que atuaram em contextos marcados por conflitos armados, regimes autoritários e repressão estatal — da Ásia ao Oriente Médio, da África à América Latina.

Pela primeira vez desde sua criação, em 1994, o prêmio foi concedido ao Brasil.

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Ouvir o silencio

As mãos dançantes estão em toda parte. Quem passa na Rua das Laranjeiras, Zona Sul do Rio, logo percebe. Pontos de ônibus, lanchonetes, bares, lá estão elas a nos hipnotizar. A cadência dos movimentos destoa do barulho atordoante de carros e buzinas do acentuado trânsito do final de tarde. Seguindo-as, chegamos até o Instituto Nacional de Educação de Surdos, o INES. A primeira escola de surdos do Brasil foi criado em 1857 por um francês, também surdo, chamado Eduard Huet.

Durante o primeiro ano de existência, o INES funcionou na Rua dos Beneditinos, no ano seguinte mudou-se para o Morro do Livramento, em seguida para o Palacete do Campo da Aclamação, depois para a Chácara Laranjeiras, e por fim para a Rua Real Grandeza. Somente em 1877 foi transferido para a Rua das Laranjeiras e em 1890 para o atual prédio, no numero 232. Por fora, a imponente construção amarela nem parece uma escola pública, onde estudam 600 dos quase seis milhões de surdos do país. Esse número corresponde 1,2 por centos dos surdos do Estado do Rio de Janeiro.

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Mulheres indomáveis, corpos a domesticar: o horror cinematográfico da bruxa

Na Idade Média, o corpo da bruxa foi imaginado como fonte de terror e signo de um feminino incontrolável, monstruoso e sempre em contato com uma exterioridade assustadora. No cinema, as bruxas cumpriram frequentemente tal papel, fazendo parte de uma galeria de outros monstros comuns, como os vampiros, os fantasmas e os zumbis. O objetivo deste trabalho, porém, é analisar um conjunto de filmes recentes nos quais a figura da bruxa emerge também como potência de libertação e criação, fazendo do feminino uma condição-limite sempre aberta à mudança e ao novo.

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Mulheres lutam pela permanência da Casa Almerinda Gama

Protesto em frente ao Palácio Guanabara denuncia despejo da Casa de Referência Almerinda Gama. A Casa já acolheu mais de 200 vítimas de violência doméstica. Ana* procurou a Casa de Referência Almerinda Gama em desespero. Sua filha, de 10 anos, havia sido violentada por um adolescente próximo da família. O abuso só veio à tona uma semana depois, quando a menina se queixou de fortes dores no baixo ventre. Internada, precisou de tratamento emergencial para prevenir doenças e lidar com complicações físicas.“Quem me conhece sabe que cuido bem dos meus filhos. Jamais imaginaria que algo assim pudesse acontecer dentro da minha casa”, disse Ana, aos prantos. Sem rede de apoio, perdeu temporariamente a guarda da filha. Histórias como a dela atravessam os corredores da Almerinda Gama desde 2022, quando o espaço — fruto de uma ocupação organizada pelo Movimento Olga Benário — passou a funcionar como abrigo autogestionado para mulheres em situação de violência doméstica. Localizado na Rua da Carioca, 37, o prédio estava abandonado havia oito anos. Desde então, mais de 200 mulheres encontraram ali orientação jurídica, acompanhamento psicológico e apoio social oferecido por profissionais voluntárias. Na quarta-feira, mulheres, crianças e idosas caminharam do Largo do Machado até o Palácio Guanabara, em Laranjeiras, para denunciar a ameaça de despejo do espaço. A prefeitura quer retomar o prédio para implantar o projeto “Rua da Cerveja”, anunciado em agosto pelo prefeito Eduardo Paes. Em cima do carro de som, os relatos se alternavam: “Com baixo custo e serviços voluntários, mostramos que é possível oferecer ajuda real. O fator econômico não é só um deflagrador da violência, mas também o que mantém muitas mulheres presas nesse ciclo.” O estado do Rio de Janeiro possui apenas três casas-abrigo públicas para mulheres vítimas de violência. A Almerinda Gama, com recursos limitados e sustentada pela solidariedade, tornou-se símbolo de resistência. O risco de seu fechamento escancara a precariedade das políticas públicas de proteção a mulheres em situação de vulnerabilidade. *Nome fictício para preservar a identidade da entrevistada.

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