Petrolão da Saúde

Blog Reportagem

Lead – O diretor-geral do Instituto Nacional de Câncer (INCA), Roberto de Almeida Gil, é acusado por um servidor de carreira de manter um grave conflito de interesses envolvendo a Oncoclínicas&Co — empresa do setor oncológico que presta serviços ao poder público e tem como um de seus principais financiadores o Banco Master. Segundo a denúncia, Gil, que declarou em entrevista ser fundador e acionista da empresa, teria usado sua posição à frente do principal órgão federal de combate ao câncer para favorecer interesses privados, em um arranjo que envolve uso de informação privilegiada e captura institucional.

A denúncia foi apresentada por Carlos Tavares Reto, funcionário público há 30 anos na área da saúde e ex-chefe da Assessoria Processual Administrativa Disciplinar Sindicante (APADS) do próprio INCA, unidade criada em 2008 e considerada referência pela Controladoria-Geral da União (CGU). Desde que levou as informações às instâncias de controle, Reto afirma ter passado a sofrer uma sequência de retaliações dentro da instituição que culminou com a abertura de um Processo Adeministrativo Disciplinar (PAD).

Ato I: O Labirinto de Reto e o Nó de 1 bilhão

Carlos Tavares Reto abre a porta do apartamento na Rua Francisco Sá, em Copacabana, e caminha até a poltrona. Sobre a mesa de centro, três cinzeiros vazios e um maço novo de Gudang Garam internacional. Ele puxa o gorro azul e deixa à mostra os cabelos loiros. Nervoso, acende um cigarro e traga; enquanto a fumaça de cravo ainda sai de sua boca, ele começa a falar.

Funcionário público de carreira há 30 anos, Reto passou metade desse tempo — 15 anos — como chefe da Assessoria Processual Administrativa Disciplinar Sindicante (APADS). Criada em 2008 e respondendo diretamente à Controladoria Geral da União (CGU), a unidade era tida como modelo para o Poder Executivo. Hoje, porém, o homem que montou essa estrutura correicional sente sua saúde ser drenada. Portador de uma doença crônica imunodepressora, ele descreve sintomas de burnout e um esgotamento visível, atestado pela médica Flávia Soares Lessa, da Fiocruz.

O motivo, segundo ele, é uma série ininterrupta de perseguições que começou há dois anos. Primeiro, tentaram impedi-lo de seguir na pós-graduação. Depois, apesar do déficit de servidores no INCA, ele foi cedido para a Justiça Eleitoral em Senador Camará, bairro a seis horas de distância de sua casa. Em seguida, seu turno foi alterado para a madrugada após décadas de trabalho diurno. Por fim, o impediram de se defender de uma acusação de homofobia, crime que ele afirma ter sido institucionalizado contra ele dentro do órgão. O ápice é um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) que Reto classifica como repleto de irregularidades e que mira sua demissão sumária.

Esta perseguição intensificou-se com a retomada das obras do Campus Integrado do INCA, o primeiro Projeto de Parceria de Investimento Público-Privada (PPP) do Ministério da Saúde. O movimento faz parte do Complexo-Econômico Industrial da Saúde, anunciado em agosto de 2024 pelo Presidente Lula e pela Ministra Nísia Trindade, com um investimento previsto de R$ 120 bilhões. Somente para o campus do INCA, o aporte via BNDES é de R$ 1,1 bilhão.

Para Reto, o interesse público está sendo atropelado. Ele aponta o Diretor-Geral do INCA, Roberto de Almeida Gil, como peça central de um esquema de conflito de interesses. Gil é fundador e acionista da Oncoclínicas&Co, empresa que abriu capital na bolsa e que, entre 2018 e 2024, recebeu R$ 18.020.921,00 do Governo Federal para serviços prestados a diversos ministérios. Além disso, Gil é sócio de um dos atuais diretores da Oncoclínicas, Carlos Gil Ferreira, em uma fundação privada de pesquisa, o Grupo Brasileiro Oncológico Cooperativo (GBOC). Os dois ainda atendem pacientes na mesma unidade privada na Praia de Botafogo.

Ato II: Os Espectros de 2015 e a Operação Fatura Exposta

O que Reto enfrenta hoje é um “déjà vu” de um dos maiores casos de corrupção que ele investigou no INCA. Em 2015, junto à CGU, ele apurou denúncias contra o mesmo Carlos Gil Ferreira, então chefe da divisão de pesquisa. Carlos Gil foi acusado de contratar suas próprias empresas para prestar serviços ao departamento e de pagar palestrantes por seminários que nunca ocorreram. Naquele ano, o projeto do Campus Integrado paralisou, e o então diretor-geral, Luiz Antônio Santini, foi demitido após o MPF mover ação por contratação irregular de 64 terceirizados via Fundação Ary Frauzino, descumprindo uma liminar de 2012.

A investigação de 2015 sofreu tentativas de interferência política direta. No dia 8 de setembro de 2015, a Secretária de Atenção Especial à Saúde, Lumena Almeida Castro Furtado (braço direito do então ministro Arthur Chioro), oficializou uma Sindicância Investigativa para apurar as verbas do setor de pesquisa. Ela nomeou para a comissão Luís Carlos Moreno de Andrade, diretor do Departamento de Gestão Hospitalar (DGH). O problema: Moreno era acusado em 9 dos 19 processos que Reto auditava na época e já fora indiciado em três. Reto confrontou a ilegalidade dessa nomeação e, com o apoio da CGU, conseguiu manter o controle da investigação.

O desenrolar dessas apurações ajudou a fundamentar a Operação Fatura Exposta, braço da Lava Jato no Rio. Em 2017, Luís Carlos Moreno de Andrade foi preso e tornou-se delator, levando à prisão o ex-Secretário de Saúde Sérgio Côrtes, acusado de fraudes em licitações de próteses para o INTO. Na época, Côrtes já havia passado pela Rede D’Or como vice-presidente e recebido um habeas corpus de Gilmar Mendes.

A eficiência da APADS sob Reto era tal que o setor foi elogiado em publicações do próprio INCA e do Governo Federal. A então corregedora-geral do Ministério da Saúde, Jussara Mendes, chegou a convidar Reto para assumir o cargo nacional, proposta que ele recusou por julgar a responsabilidade imensa: gerir a fiscalização de um dos maiores orçamentos da União (estimado em R$ 241,6 bilhões para 2025).

Ato III: O PAD e o “Gaslighting” Institucional

Hoje, a estrutura correicional de Reto foi desmantelada, e ele se vê investigado por aqueles que denunciou. Ele levou mais de 30 denúncias ao Corregedor Geral do Ministério da Saúde no Rio, Evandro Joitsi Henna, relatando desde o desaparecimento de prontuários médicos (que agravaram casos de câncer em crianças e idosos) até privilégios para empresas de ambulâncias e pagamentos por serviços não prestados. Joitsi silenciou por um ano.

Em vez de investigar as denúncias, Joitsi abriu um PAD contra Reto por assédio moral. Em uma cena de intimidação no 4º andar do INCA, o próprio Diretor-Geral Roberto Gil, acompanhado de outros diretores, entregou o documento a Reto. Gil não apenas teve acesso ao processo — o que é tecnicamente irregular, já que o sigilo deveria ser mantido —, como arrolou Joitsi e sua equipe como testemunhas de acusação. Ou seja: o corregedor que ignorou as denúncias de Reto agora é quem o processa e testemunha contra ele.

O cerco fechou-se com tentativas de desqualificar a sanidade de Reto. A direção passou a tratá-lo como “louco”, solicitando exames psiquiátricos sem motivo. Roberto Gil, em entrevista, referiu-se a ele como um “garoto com problemas”, apesar de Reto ter quase 50 anos e ter sido aprovado recentemente entre os 50 melhores (com nota superior a 9.0) em um concurso da ENAP que teve 4 mil candidatos.

Para Reto, o que está em jogo é a mudança da personalidade jurídica do INCA para CLT, o que facilitaria compras sem licitação e sobrepreço, além de silenciar vozes dissidentes através da ameaça de demissão. Ele tentou obter da Casa Civil os estudos que embasariam essa privatização. A resposta da Casa Civil via Lei de Acesso à Informação foi de que tais estudos não existem.

“Gelei por dentro ao me dar conta da dimensão”, diz Reto. “Mirei no que vi e acertei o que não vi”.

Ato IV: O Confronto no 4º Andar e a Confissão do IPO

A tensão que permeia a história de Carlos Reto atinge seu ápice na sala da diretoria do INCA. Roberto de Almeida Gil, o Diretor-Geral, recebeu a reportagem para uma entrevista que durou uma hora e vinte minutos. O que deveria ser um esclarecimento técnico transformou-se em um embate de vozes erguidas. Gil mostrou-se irritado ao ser questionado sobre o que Reto aponta como o “pecado original” da gestão: o conflito de interesses.

Embora o currículo oficial de Roberto Gil em sites como o Escavador o apresente apenas como médico, Reto descobriu que sua ligação com a Oncoclínicas&Co é estrutural. Gil é fundador da empresa. Questionado se ainda mantinha laços financeiros com o grupo, Gil respondeu aos gritos: — “Mas olha o que você está perguntando, quem funda alguma coisa eternamente é fundador. Eu não sou… neste momento tenho ações da Oncoclínicas. Ações residuais num processo de negociação de venda. Parte dessa venda foi feita por meio de ações, das quais recebi uma pequena fatia quando fez o IPO.”

A “pequena fatia” mencionada refere-se ao IPO (Oferta Pública Inicial), o momento em que a Oncoclínicas abriu seu capital na Bolsa de Valores para captar acionistas e expandir sua operação. Ao admitir a posse dessas ações, Gil revelou que sua relação vai muito além da medicina: ele é sócio de um negócio que hoje vale R$ 3,9 bilhões e que acaba de receber um aporte de R$ 1 bilhão do Banco Master (via fundos Quíron e Tessália). A Lei 12.813 de 2013 é clara ao tipificar o conflito de interesses não apenas no enriquecimento ilícito, mas no potencial de influenciar decisões públicas em benefício de ativos privados.

Ato V: O Telefone e a Pedra no Sapato (GBOC)

O momento mais surreal da entrevista ocorreu quando surgiu a sigla GBOC (Grupo Brasileiro Oncológico Cooperativo). Roberto Gil foi enfático: disse que a empresa não existia e que nunca fizera sociedade com o Dr. Carlos Gil Ferreira. — “O que é GBOC? Não existe, eu nunca fiz nenhuma sociedade com o Dr. Carlos Gil. Nenhuma”, afirmou, ignorando que o CNPJ da fundação segue ativo no RedeSim do Governo Federal.

Com os dedos mindinho e anelar da mão direita tremendo, o diretor decidiu ligar para Carlos Gil Ferreira para “provar” que a jornalista estava errada. O diálogo que se seguiu, com o viva-voz ligado, revelou uma tentativa atrapalhada de alinhar versões:

“Carlos, eu estou aqui com uma jornalista que está em um processo de denúncia que eu tenho por ligações que eu teria com você, entendeu? Através do GBOC, que eu confesso agora, eu nem me lembro disso. Foi uma coisa fundada em 2004… Você sabe disso do GBOC?”“GBOT?”, respondeu Carlos Gil do outro lado. — “GBOC. G-B-O-C. 2004.”“Nem sei o que é isso, não sei.”

A amnésia coletiva durou pouco. Minutos depois, Carlos Gil lembrou-se: seria o grupo que “o André Murad criou”. A reportagem, contudo, possui os registros: o GBOC não apenas existiu, como patrocinou pesquisas e participou de congressos nacionais até 2014. Seu presidente, André Murad, recebeu congratulações na Câmara de Minas Gerais através do deputado Dimas Fabiano Toledo — político que, em 2017, foi citado na Lava Jato por suspeita de repasse de propinas da Odebrecht para o PT e o PSDB.

Ao perceber que a ligação não encerrava a dúvida, mas a aprofundava, Roberto Gil tentou desqualificar a origem da investigação: — “É um cara que tem um problema aqui no INCA… que está com ação na corregedoria e agora quer devolver isso em denúncias para mim, entendeu? E ela está impressionada que estou muito irritado aqui, mas você me conhece.”

Ato VI: O Desfecho e a Ameaça Final

A entrevista foi encerrada abruptamente quando uma secretária interrompeu a conversa para anunciar uma reunião. Ao ser solicitado o telefone de Carlos Gil para que ele pudesse explicar sua versão, uma mulher não identificada, que gravava a entrevista clandestinamente ao lado do diretor, interveio impedindo o contato. Roberto Gil despediu-se com uma frase que ainda ecoa: “Isso vai ter desdobramentos, isso vai ter desdobramentos”.

Os desdobramentos vieram, mas para Carlos Reto. Em novembro de 2024, seu afastamento foi renovado por mais 60 dias. O uso excepcional do afastamento imediato, previsto na Lei 8.112/90, só deveria ocorrer se o servidor pudesse intimidar testemunhas — algo improvável para Reto, que já não ocupava cargo de chefia desde 2018.

A última peça do quebra-cabeça técnico é a composição da comissão que investiga Reto: ela é formada por Policiais Rodoviários Federais. Diferente dos servidores civis, que têm o dever funcional de denunciar ilegalidades, os PRFs são regidos por uma hierarquia de subordinação que pode comprometer a isenção necessária para julgar uma denúncia contra o alto escalão do Ministério da Saúde.

Enquanto isso, Reto resiste. Apoiado por figuras como Heloísa Helena, que já provocou o Ministério Público e o Senado (Randolfe Rodrigues e Tarcísio Motta), ele aguarda. Recentemente, uma advogada da Oncoclínicas ligou para ele, querendo saber se as denúncias já haviam sido formalizadas no MPF. O “garoto com problemas”, como Gil o chama, provou ser o homem que mantém os olhos abertos enquanto o patrimônio público do INCA é negociado em pregões de bolsa e gabinetes fechados.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *