Entrevista com o Perito Sami El Jundi – Perito contratado por Jairo de Souza Santos Júnior
Em abril de 2024, fui até o Rio Grande do Sul entrevistar o perito Dr. Sami El Jundi. Ele atua no Caso Henry como assistente técnico contratado pelo réu e ex-vereador, Jairo de Souza Junior. Nos encontramos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, (UFRGS) onde ele é professor concursado do Departamento de Ciências Penais da Faculdade de Direito. A conversa aconteceu dias antes das enchentes que deixaram boa parte de Porto Alegre sob as águas.
O Anatomista do Sistema
Sami Abder Rahim Jbara El Jundi é uma das maiores referências atuais em perícia criminal e medicina legal no Brasil. Com uma carreira firmada em duas décadas no Instituto Geral de Perícias do Rio Grande do Sul (IGP-RS), como médico legista e depois perito criminal, Dr. Sami não lê apenas tecidos e traumas em um cadáver. Suas análises evidenciam falhas estruturais do sistema judiciário brasileiro. Em nosso encontro, ele fez críticas impactantes à perícia no Brasil, especialmente no que se refere à formação do perito, que, segundo ele, não atua como um cientista isento, mas como parte da “tropa” policial. Esse “vício de origem” resulta em uma cultura de “adestramento” que sacrifica a dúvida científica em favor do veredito pretendido pelo Estado.
Dr. Sami fala com autoridade de quem se forjou em cenários de crise extrema, como quando atuou como perito das Nações Unidas no Congo. Em um dos países que detém as maiores violações aos direitos humanos do mundo, Dr. Sami aplicou o rigor de Protocolos como os de Istambul e de Minnesota — consideradas as “regras de ouro’” da ONU para investigar tortura e execuções extralegais.
Para termos uma ideia, o protocolo de Istambul ensina o médico a distinguir lesões acidentais daquelas infligidas intencionalmente para causar sofrimento. Trata-se de uma série de diretrizes, que exige do perito uma correlação minuciosa entre o relato da vítima (ou testemunhas) e os achados físicos. Na prática, obriga o perito a se tornar um investigador cético e estabelece orientações políticas e técnicas que os Estados devem seguir para produzir provas. No Brasil, o Dr. Sami se tornou uma voz dissonante ao denunciar que a inobservância dessas diretrizes internacionais permite que o improviso e o ‘instinto’ de justiceiro substituam a prova material inquestionável.
Diferente do que o mercado chama de “perito de aluguel”, o Dr. Sami impõe um filtro ético aos seus clientes. Sua consultoria opera sob três atos: uma avaliação preliminar puramente científica, a validação da viabilidade técnica e, então, o suporte processual. Em outras palavras: se a ciência não sustenta a tese da defesa, ele declina o caso.
Com essa postura técnica, Dr. Sami mergulhou no centro de alguns dos episódios mais dramáticos do judiciário brasileiro recente, tais como os casos: Flordelis, Matsunaga, Zaira Cruz, Henry Borel, entre outros. Em todos eles, o método do Dr. Sami permanece: uma busca minuciosa pela “caixa preta” da perícia médica e a recusa absoluta em permitir que o improviso ou o clamor público turvem a neutralidade da prova material.
Parte 1 – Caso Henry e a Caixa Preta do Rede D´OR
A equipe médica que recebeu Henry, naquela madrugada do dia 07 de março de 2021, declarou formalmente à justiça: a criança chegou em óbito. Mas os procedimentos adotados sugerem uma tentativa tecnicamente contraditória de reanimação. Além disso, há um vácuo de monitoramento do período em que manobras invasivas foram iniciadas. Não há registro preciso do estado hemodinâmico de Henry ou seja, não há dados reais sobre como o sangue estava circulando e qual era a sua pressão arterial ao dar entrada na emergencia da pediatria. Dr. Sami afirma que essa lacuna impede saber o que era trauma prévio e o que foram marcas deixadas pelo próprio esforço médico na tentativa de reanimação
Durante uma hora – o prontuário aponta manobras de reanimação por 60 minutos-, a equipe submeteu o corpo de Henry a uma massagem cardíaca ininterrupta, um procedimento de extrema força física que, em pacientes infantis, tem potencial para causar ou exacerbar lacerações internas. Os médicos realizaram uma toracocentese, punção para alívio de ar ou líquido no tórax, e enfrentaram dificuldades para realizar a intubação orotraqueal. O Dr. Sami questiona o paradoxo de realizar manobras tão agressivas em alguém que a própria equipe afirmou estar morta, sem que houvesse um log ou registros do monitoramento eletrônico para validar a necessidade ou a cronologia de cada intervenção.
Um exame de raio-x, peça fundamental para entender o estado esquelético e pulmonar de Henry na chegada, teria sido retido pelo Barra D´Or por meses. Somente após sucessivas petições da defesa de Jairo Jr., o acesso à radiografia completa e ao laudo radiológico foi deferido pela juíza Elizabeth Machado Louro. Cerca de 1 ano e 3 meses após o crime, em junho de 2022, às vésperas do depoimento do Dr. Sami.
Até agora, nenhuma investigação foi aberta sobre o que aconteceu no hospital da Rede D´Or. A entrevista a seguir, foi dividida em três partes: as falhas do atendimento a Henry, problemas da perícia do IML e o cenário político que o Caso Henry evidencia.
1. Em sua análise, o senhor afirma que o atendimento no Hospital Barra D’Or carece de “racionalidade técnica”. O que exatamente sustenta essa afirmação?
Dr. Sami: Choca que um hospital de elite não tenha o registro exato da cronologia de atendimento, nos impedindo de saber o estado real em que Henry chegou. E ninguém investigou as hipóteses de erro ou falha no atendimento; o sistema simplesmente aceitou o vácuo de informações.
2. Os médicos do hospital afirmaram que Henry chegou morto. Por que realizaram procedimentos invasivos como a intubação?
Dr. Sami: Esse é o paradoxo. Se a criança chega em “óbito óbvio”, como alegado depois, por que o tratamento de vivo? Houve uma dificuldade relatada em entubar a criança, mas o ponto é: manobras invasivas em um corpo supostamente morto alteram a anatomia e criam marcas que podem ser confundidas com agressões na necrópsia. Uma coisa é uma pessoa errar, outra é uma equipe inteira. Chamaram uma médica que estava em casa para ir ao hospital. Por que fariam isso? Só tem uma explicação, a criança estava viva, é a única explicação pra tudo isso. Ou todo mundo errou, o que seria um absurdo num hospital como o Barra D´OR ou a criança estava viva.
3. É comum que médicos experientes confundam rigidez cadavérica com trismo?
Dr. Sami: Experiência em quê? Em tratar dor de garganta? Em atender filhos de famílias ricas? Isso foi algo que chamou muito a minha atenção. Uma das médicas afirmou ter 30 anos de experiência em pediatria, mas, ao mesmo tempo, foi uma das pessoas que confundiu trismo com rigidez cadavérica. O resultado? Ela ficou tentando reanimar um cadáver.
Isso é comum? É aceitável? Eu sinceramente não sei como definir o fato de uma médica, após três décadas de profissão, fazer essa “confusão”. Posso deduzir que é uma situação que não deveria ser comum na rotina dela. E não foi apenas uma; pelo menos duas médicas fizeram referência ao trismo. Qual delas realmente viu o que relatou? Ambas falam em trismo em seus depoimentos e, se não me falha a memória, também no prontuário.
O trismo só ocorre em pessoas vivas; não acontece em mortos. Então, como se diferencia uma coisa da outra? É simples: um só dá em morto e o outro só dá em vivo. Para separar os dois fenômenos, você precisa primeiro definir se o paciente está vivo ou morto. A pergunta que fica é: ela não sabia se ele estava vivo ou morto?
4. O senhor aponta especificidades sobre o médico que atende em hospitais privados e emergências, e a importância de saber lidar com uma criança em estado crítico — o que não é comum nessas unidades. O caso Henry escancara falhas na capacitação do profissional médico?
Dr. Sami: Eu nunca consegui apurar quando foi a última vez que as pediatras que atenderam o caso fizeram um treinamento de reanimação em criança — se é que o fizeram. Eu, por exemplo, fiz meu último treinamento em adultos em 2002, válido até 2004. Parei de clinicar em 2007 e nunca mais renovei. Esses certificados precisam de renovação a cada dois anos por um bom motivo: a técnica se perde se não for praticada.
Quantas crianças precisam de reanimação na emergência de um hospital de elite como o da Rede D’Or? Provavelmente uma ou duas por ano. São pouquíssimas. Para ilustrar: se eu precisar de uma cirurgia eletiva em Porto Alegre, marco em um hospital privado “top” com meu plano de saúde. Mas, se eu for atropelado na rua agora, quero ser levado para o Pronto-Socorro Municipal (HPS). Por quê? Porque lá estão os médicos que lidam com trauma e parada cardíaca todos os dias.
O hospital particular de elite não recebe o traumatizado; ele não está acostumado com isso. Estamos falando de uma das maiores redes hospitalares da América Latina, mas é um hospital para crianças com dor de garganta, não para crianças atropeladas ou, em paradas cardíacas. Mesmo em São Paulo, se eu for atropelado, não quero ir para o Einstein ou para o Sírio-Libanês.
5. O senhor acredita, então, que eles não estão preparados para casos de alta complexidade?
Dr. Sami: Eles não têm gente preparada para o trauma no cotidiano. Se eu der sorte, chego em um hospital de elite e o plantonista de lá também trabalha em um hospital público de emergência, onde ele realmente pratica essas manobras.
6. Isso que o senhor está fazendo é uma dedução?
Dr. Sami: Não, não é uma dedução. Isso é uma constatação. É a realidade dos nossos hospitais; eu conheço a rede hospitalar brasileira. Isso é uma constatação que eu tentei, inclusive, forçar a verificação dentro do processo, mas não consegui. O sistema não permitiu apurar o real tempo de experiência e o treinamento daquelas médicas.
Quando digo que conheço a rede hospitalar é porque atuo com erro médico. O que paga as minhas contas não são os casos como o de “Jairinho”. Casos assim trazem muito estresse e exposição. Eu vivo para defender médicos processados por erro médico; esse é o meu dia a dia. Atualmente, recebo três casos por semana de profissionais de saúde que estão respondendo judicialmente por falhas no exercício da profissão.
7. Em 2024, o CNJ substituiu o termo “erro médico” por “danos decorrentes da prestação de serviços de saúde”. Na prática, isso não soterra a especificidade do erro e dificulta a fiscalização? Como o senhor vê essa mudança?
Dr. Sami: Acredito que essa decisão do CNJ não terá vida longa. Os próprios juízes já estão reclamando, pois isso gera problemas estatísticos e dificulta o monitoramento dos casos. O CNJ tentou “ficar bem” com a classe médica, mas a realidade jurídica é outra.
No Direito Civil, não interessa se o médico errou de boa-fé ou de má-fé; se houve o erro, cabe a indenização. Diferente do Direito Penal, onde se discute o dolo ou a culpa, no cível, como dizia o Chapolin: foi sem querer querendo ou não, não importa. Errou, indeniza.
Há dois pontos aqui: a preparação do médico, que é responsabilidade do Estado ou do hospital privado, e a conduta em si. No caso Henry, fiz questão de registrar em meu parecer que nunca questionei o dolo das médicas. Nunca foi sobre dizer que elas quiseram o resultado ou tentar transferir a culpa do Jairinho e da Monique para elas. Precisamos separar as coisas: uma coisa é a intenção criminosa, outra é a falha técnica no atendimento.
8. Pergunta: Gostaria de entender os efeitos de uma massagem cardíaca prolongada em uma criança de quatro anos. O prontuário do caso indica que, das quase duas horas de ressuscitação, cerca de 50 minutos foram de massagem cardíaca contínua. Quais as consequências disso?
Dr. Sami: Uma massagem cardíaca de quase 60 minutos é um procedimento extremamente vigoroso. Em uma criança, esse esforço tem potencial para causar lacerações graves em órgãos internos, como o fígado. O problema é que, sem um monitoramento rigoroso de quais procedimentos foram feitos e em que ordem, a perícia oficial atribuiu toda e qualquer lesão a um suposto crime, ignorando completamente o impacto desse esforço brutal de ressuscitação.
É fundamental ressaltar que medidas de reanimação, seja em adultos ou crianças, são necessariamente traumáticas. Não existe forma de produzir respiração artificial ou massagem cardíaca que mobilize e faça o sangue circular sem que isso seja invasivo. A literatura especializada reconhece a existência de lesões produzidas por manobras de reanimação em um percentual significativo — que pode superar 70% dos casos, dependendo da duração e do vigor das manobras. Em certos cenários, admite-se inclusive que a própria medida salvadora pode acabar sendo a causa direta da morte.
9. Sobre a toracocentese realizada no hospital, por que esse procedimento é um ponto crítico para a defesa?
Dr. Sami: A toracocentese é uma punção no tórax. Ela modifica o corpo. Se você não documenta o estado do tórax antes da punção, você perde a capacidade de distinguir se um problema pulmonar era prévio ou decorrente da agulha. É mais um dado que se perdeu na falta de registros do Barra D’Or.
10. O senhor enfrentou uma longa batalha judicial para obter o Raio-X feito no hospital. Por que esse exame é tão importante?
Dr. Sami: O Raio-X é a prova iconográfica do estado esquelético e pulmonar na entrada. O hospital reteve esse dado por mais de um ano (entregue apenas em junho de 2022). Essa resistência em fornecer um exame básico sugere uma tentativa de blindar a instituição contra análises independentes que pudessem contestar a narrativa oficial.
11. Como o senhor interpreta a ligação de Jairinho para executivos da Qualicorp na tentativa de liberar o corpo?
Dr. Sami: Vejo como a “política do pau na mesa”. Ele agiu como o político que acha que resolve tudo no grito ou no contato. Ele não ligou para o diretor médico, ligou para o executivo. Foi um erro estratégico de alguém arrogante que não calculou que essa demonstração de poder seria lida como tentativa de obstrução.
12. O senhor menciona que não houve monitoramento sobre os procedimentos assumidos. O que um hospital desse porte deveria ter entregue?
Dr. Sami: Deveria ter entregue o log eletrônico dos monitores. Quem tentou intubar e falhou? Que horas a medicação entrou? Que horas o traçado cardíaco parou de vez? O Barra D’Or operou como um hospital de guerra, entregando registros lacunosos que o sistema judiciário aceitou sem questionar.
13. Existe o que o senhor chama de “acordão institucional” protegendo a Rede D’Or?
Dr. Sami: Sim. Para o sistema funcionar mal, todos cooperam. A juíza e o MP não pressionaram o hospital como deveriam. Existe uma zona de conforto em não questionar uma gigante hospitalar. Puxar o fio do erro médico ou da omissão do Barra D’Or desestabilizaria o inquérito que a polícia já considerava “fechado”.
14. A falta de imagens das câmeras internas do hospital também foi um problema relatado. O que essas imagens poderiam provar?
Dr. Sami: As imagens diriam se a criança estava pálida, cianótica ou se tinha movimentos respiratórios na chegada. Diriam a verdade sobre o “óbito na chegada”. A ausência desses dados permitiu que a acusação montasse uma cronologia baseada apenas em mensagens de WhatsApp, e não em dados clínicos reais.
15. Em resumo, qual a sua conclusão sobre a responsabilidade do hospital na precarização da prova?
Dr. Sami: O hospital foi um agente de omissão técnica. Ele entregou um corpo “modificado” por procedimentos agressivos e um prontuário incompleto. Com a conivência da perícia oficial, essas falhas hospitalares foram varridas para baixo do tapete para sustentar a tese de homicídio, impedindo qualquer chance de um debate científico sério.
Parte 2 – O problema com a perícia
O outro problema grave nas investigações do Caso Henry, apontado por Dr. Sami, é o trabalho da perícia do Instituto Médico Legal Afrânio Peixoto (IML). Foram sete laudos de necropsia repleto de problemas e contradições, apresentados como erros decorrentes de má digitação ou do ato de copiar e colar, sem verificação prévia antes da emissão. Por exemplo, no laudo 4, das 9h29, do dia 20 de abril de 2021, duas lesões que Henry apresentava no nariz e olho, aparentemente no lado esquerdo, são descritas como contendo “infiltrado inflamatório”, indicando que foi feita em vida. O laudo 5, emitido às 16h11, do mesmo dia, afirma que as mesmas lesões possuem “aspecto apergaminhado”, produzidas após a morte. Não bastasse, somente no 4 laudo consta o nome do Barra D`OR como hospital do qual o corpo fora encaminhado.
E os problemas seguem: a cor dos olhos de Henry foram descritas como castanha e era azul; em nenhum momento as marcas da toracocentese bilateral é citada; o abdômen não foi fotografado, prova importante, haja visto que, apresentaria marcas roxas condizentes com a laceração hepática, causa do óbito.
Para o Dr. Sami, a perícia – não só no Rio de Janeiro, mas no Brasil, abandonou o rigor científico para servir aos interesses do inquérito policial. Uma crítica contundente, especialmente porque, atualmente, o sistema carcerário brasileiro, mantém mais de 900 mil presos sob sua custódia. A maioria pobre, pardo ou preto.
Outro ponto crítico apontado por ele é a ausência de fotografias do abdômen da criança, o que impede qualquer contra perícia independente de validar a tese de agressão. A necropsia também foi realizada em tempo escasso, 44 minutos, incluindo nesse tempo a escritura do primeiro laudo. Para o Dr. Sami, tais problemas tornam inviável um exame sério. Existe também a suspeita, baseada em escalas de seu consultório particular, de que o perito responsável não estava no IML no momento do exame. Além disso, a comunicação por WhatsApp entre delegado e perito para elaborar os laudos complementares sugere que a prova técnica foi “encomendada”. O Dr. Sami conclui: “Ao invés de esclarecer, os laudos geraram mais confusão ao serem lançados conforme a conveniência da acusação”, conclui Dr. Sami.
1. Qual a sua análise sobre a sucessão de sete laudos e aditamentos neste caso?
Dr. Sami: Os laudos de necropsia apresentam um problema muito sério. Eles são um lixo. Se você olhar as datas e horários, o delegado demandava e o perito corria para o IML para preencher o laudo. Houve um “ajuste” das informações conforme o caso avançava.
2. O que a ausência de fotos das lesões no abdômen revela sobre o trabalho da perícia?
Dr. Sami: Revela um descuido total. Todo o exame necroscópico foi realizado entre 17h40 e 18h24. Menos de 44 minutos e há que se descontar o tempo de digitação do laudo. Uma necropsia bem feita dura de três a quatro horas. O exame no corpo do Henry foi feito às pressas e sem o mínimo cuidado. O perito responsável (Leonardo Huber Tauil) ainda alega que a fonte das informações que originaram as modificações provém de “anotações pessoais” que ele nunca mostrou porque destruiu!
3. O senhor disse que existe a possibilidade que o perito não estivesse presente no plantão do IML . De onde essa hipótese foi tirada?
Dr. Sami: Há uma suspeita muito forte, levantada pelos advogados, de que o perito estava atendendo no consultório dele no momento em que deveria estar no IML. É extremamente comum o perito não estar no IML. É comum acontecer no país inteiro. Funciona assim: você bota três peritos no IML para uma demanda de 15 necropsias por dia. Daria cinco para cada um, não teria fila e as famílias não esperariam. O que os legistas fazem? Eles pegam a escala de 24 horas e dividem entre os três: dois vão para o consultório, para casa ou para um motel com a namorada, e apenas um fica fazendo o plantão. O Estado paga três sujeitos para estarem lá 24 horas, mas o que recebe em troca é um sujeito trabalhando oito horas.
A contrapartida que a perícia recebe neste arranjo de conveniências é: “eu te dou, delegado, o que você quer, e você não enche o meu saco”. O que eles ganham é “não me incomodem para que eu possa manter minhas atividades paralelas”, porque o IML não é a prioridade. Eles entregam o que o delegado e a promotora querem apenas para se manterem como funcionários daquele lugar, recebendo e garantindo uma aposentadoria de 18, 20 mil por mês.
O sistema permite isso: o perito dá ao delegado o que ele quer e, em troca, o delegado não “enche o saco” sobre o perito não cumprir a escala. Uma das questões que a gente nunca conseguiu responder era: onde estava o perito quando o corpo do Henry chegou? A gente nunca conseguiu ver as escalas de trabalho da perícia para saber onde ele estava.
4. E por que não conseguiram?
Dr. Sami: Tentamos levantar essa informação no processo, mas a juíza não quis nem saber.
5. Por medo, talvez?
De um lado existe o medo, mas de outro a pergunta é: até onde o medo é real e até onde o medo é uma desculpa razoável para outras coisas? Essa é uma questão que nunca foi resolvida porque a própria juíza não quis resolver. Para que o sistema funcione, todo mundo tem que cooperar. A juíza coopera com o Ministério Público, que coopera com a polícia, que coopera com a perícia e todo mundo faz essa engrenagem funcionar do jeito que funciona. Ninguém quer sair da sua zona de conforto. Esse é o acordão.
Agora a gente viu como é que se vira chefe de polícia no Rio de Janeiro. A gente acabou de ver’ (referindo-se ao caso de Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil preso por envolvimento no mando da morte de Marielle Franco). Todo mundo colabora. O delegado, a gente sabe, vira chefe, porque carreira de delegado se constrói em cima de casos rumorosos. No caso Henry, o delegado Henrique Damasceno indiciou o Jairo e a Monique um mês depois da morte; foi muito rápido, sendo que a média de inquéritos no Rio de Janeiro é muito maior (segundo o II Relatório da Defensoria Pública do RJ de 2023, a média geral de tramitação de inquéritos de homicídios contra crianças (0 a 14 anos) no Estado é de 7 anos e 8 meses, subindo para 8 anos e 8 meses na capital).
O próprio Henrique Damasceno, logo depois, foi promovido a Diretor do Departamento-Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa (DGHPP). O cargo que o alçou ao comando de todas as delegacias de homicídios do Estado do Rio de Janeiro. Os peritos receberam uma Moção de Aplausos e Congratulações concedida pela ALERJ (proposta pelo deputado estadual, hoje federal, Renato Zaca, Partido Social Liberal – PSL), pela rapidez e eficiência na solução do caso. Como um trabalho repleto de problemas pode receber premiação?
6. É isso que o senhor chama isso de “acordão de conveniências”?
Dr. Sami: Sim. O delegado e o perito, por exemplo, tinham um grupo de WhatsApp. Se você olhar as datas e as horas de todos os laudos que o perito respondeu, ele parecia estar disponível para o delegado 24 horas por dia. O delegado demandava e ele corria para o IML para preencher o laudo. O cara não tinha data, não tinha dia, não tinha hora. Isso destrói qualquer ideia de independência da perícia. Ninguém quer mexer nisso, porque puxa um fio que não interessa a ninguém. Se você puxa o fio do legista, acaba puxando o do chefe dele, o do chefe do sistema, o do delegado-geral e chega até o controle externo do Ministério Público. Se você puxar o fio do legista, puxa o do sistema inteiro. No fim, todos são cúmplices desse tipo de coisa. Por que você acha que eu pedi demissão? Por que você acha que eu recusei um salário de 18 mil reais? Era bom e eu poderia me aposentar com ele. E o Rio Grande do Sul possui o pior do país para a categoria. É disso que falamos.
7. O senhor não acredita que a perícia no Brasil produz ciência?
Dr. Sami: Não, ela não produz ciência. Ela alimenta o sistema e produz provas para a acusação. Ela se justifica em cima da ciência, mas na prática serve apenas para validar a tese da polícia. A academia de polícia ensina o perito a se comportar, falar e pensar como policial. É um processo de adestramento, de domesticação. O perito entra querendo cumprir o papel de justiceiro, não de observador científico. A instituição não quer ciência, ela quer que o resultado não crie problemas. Um perito rigoroso cria dificuldades para o fluxo que já está estabelecido entre a delegacia e o tribunal. É… Teoricamente, o perito deveria colocar a ciência a serviço da justiça.
8. A perícia não produz ciência por conta da subordinação à polícia?
Existe esse pensamento mágico de que o problema da perícia é apenas a subordinação administrativa. Ela é um problema, mas não é o problema. Veja os exemplos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina: eles se tornaram independentes, criaram seus Institutos Gerais de Perícias, e a realidade não mudou. Absolutamente nada.
Eu fui perito por dez anos e médico legista por cinco. O que eu costumo dizer é que nós saímos da polícia, mas a polícia não saiu de nós. A lógica institucional permanece. É como o caso do Corpo de Bombeiros no Rio Grande do Sul: eles saíram de dentro da Polícia Militar, mas isso não significa que deixaram de ser o Corpo de Bombeiros Militar com toda a sua lógica, sua hierarquia e seus ‘podres poderes’. Não mudou nada. Muitas vezes, esse ‘rachar’ de instituições serve apenas para criar mais cargos — onde antes podia ter cinco coronéis, agora pode ter dez, divididos entre as duas instituições. A lógica continua sendo a mesma. A perícia só produzirá ciência quando o rompimento for cultural e racional. Não basta mudar o organograma administrativo se você continua reproduzindo as mesmas relações de poder e a mesma forma de (não) produzir conhecimento
9. Qual a conclusão sobre o papel da perícia na manutenção da prisão dos réus no caso Henry?
Dr. Sami: A maior prova contra o Jairinho, por exemplo, são os laudos de necropsia, que como eu disse, são um lixo. Estão determinando a vida das pessoas com base em uma produção técnica precária, rápida e politizada.
3. parte: O xadrez Político – o que o Caso Henry revela
Esta etapa da entrevista, consiste em checar algumas informações fornecidas pelo Dr. Sami, retiradas do processo, mais os dados da investigação noticiados. Separei-os em dois pontos. O primeiro foi a punição aplicada a Jairinho, especificamente, a perda do CRM e do mandato na câmara.
E o segundo foi tentar entender porque o ex-vereador ligou para Pablo dos Santos Meneses, Vice-presidente de Operações e Relacionamento da Qualicorp (de mai. 2020. Abr. 2023) ao tentar liberar o corpo de Henry. Somente em abril de 2023, Meneses assumiu a Vice-presidência da Rede D´Or.
Primeira parte da checagem
Segundo dados obtidos pelo UOL, através da Lei de Acesso à Informação (LAI), é muito raro um médico perder definitivamente o registro no Brasil. Entre 2010 e 2017, apenas 3,7% dos profissionais investigados pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) foram impedidos de exercer a profissão. Em 2023, dos 859 médicos que figuraram em processos julgados pelo conselho federal, apenas 16 tiveram seus registros cassados — o que representa menos de 2% do total de julgados no ano.
Jairinho foi cassado por unanimidade antes de se submeter ao júri popular. O que destoa drasticamente de casos com antecedentes graves onde o registro médico permaneceu intocado. Luciano Barboza Sampaio, por exemplo, que atestou em 2008 o óbito de uma paciente que ainda estava viva. E, apesar desse histórico, nunca perdeu o registro profissional, permanecendo com o CRM ativo até ser absolvido por um júri popular em junho de 2024, em outro processo envolvendo a morte de uma criança.
Da mesma forma, Salim Michel Yazeji, condenado por estupro em 2019, só sofreu uma interdição cautelar aplicada pelo Cremerj em julho de 2023. Outro exemplo, Leandro Boldrini, condenado pela morte do filho ocorrida em 2014, teve a cassação oficializada pelo CFM apenas em fevereiro de 2025, mais de uma década após o crime.
A perda do CRM de Jairinho veio acompanhada pela cassação de seu mandato na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, também por decisão unânime e anterior ao desfecho judicial. Algo inédito. No período dessas decisões, Jairinho era o mais indicado para assumir a vaga de Conselheiro no Tribunal de Contas do Município (TCM) — cargo vitalício que garante foro por prerrogativa de função no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Ele e Márcio Pacheco faziam parte da cúpula da Alerj e disputavam nos bastidores a indicação para o Tribunal. Jairinho era considerado o favorito do então presidente da Alerj, André Ceciliano, enquanto Pacheco era o nome de confiança do governador Cláudio Castro. Com a morte de Henry, Pacheco assumiu em 2022.
A dinâmica “fora do comum” estendeu-se à própria condução do inquérito policial. Segundo levantamento da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, o tempo médio de tramitação de inquéritos de homicídio envolvendo vítimas entre 0 e 17 anos no Estado é de 2.819 dias — cerca de sete anos e oito meses. O inquérito do Caso Henry Borel foi encerrado em 56 dias.
As informações sobre a celeridade dos processos administrativos, o cenário político da época e o tempo de encerramento do inquérito sustentam a análise do Dr. Sami sobre as implicações técnicas e institucionais desses eventos no desfecho do caso.
Segunda Parte
A investigação sobre o papel de Pablo dos Santos Meneses no Caso Henry revela o trânsito fluido entre o setor hospitalar privado, o mercado de planos de saúde coletivos e os espaços onde se discutem os rumos institucionais da saúde no Brasil — tudo isso em um momento em que a iniciativa privada amplia sua atuação no Sistema Único de Saúde, por meio de contratos, parcerias e modelos de gestão compartilhada. Em 2023, Meneses participou do Fórum Jurídico de Lisboa como representante da Rede D’Or, grupo que se define como o maior conglomerado hospitalar privado do país e que figura, segundo rankings do setor, entre os maiores da América Latina. O tema da mesa era “Saúde, Governança, sustentabilidade e Inclusão Social. O nome de Meneses não consta na lista de palestrante, somente na programação completa do evento. Na mesma mesa estavam presentes Ricardo Couto, Presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Antonio Saldanha, Ministro do Superior Tribunal de Justiça e Coordenador Acadêmico da FGV Justiça e Paulo Rebello, Presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (2021-2024).
No mesmo ano, Meneses ocupava um dos cargos executivos centrais da companhia, posição que o colocava na interseção entre a gestão hospitalar privada e os debates sobre financiamento, regulação e a expansão da presença empresarial em áreas historicamente vinculadas ao Estado.
O Fórum Jurídico de Lisboa, organizado pelo Instituto de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), fundado pelo ministro Gilmar Mendes, consolidou-se como um espaço de interlocução direta entre ministros do Supremo Tribunal Federal, autoridades do Executivo, parlamentares e executivos de grandes grupos econômicos. Nesse ambiente, a presença de representantes de conglomerados hospitalares e de empresas do setor de saúde suplementar não se dá como detalhe lateral, mas como parte estruturante das discussões sobre modelos de gestão, parcerias público-privadas e os limites — ou a ampliação — da atuação empresarial no SUS.
É nesse contexto que a ligação feita por Jairinho na madrugada da morte de Henry ganha outra espessura. Ao acionar Meneses, então vice-presidente da Qualicorp — empresa especializada na administração de planos de saúde coletivos e historicamente posicionada como intermediária estratégica entre grandes operadoras, empregadores e o poder público — Jairinho parece ter recorrido a uma lógica conhecida nos bastidores do poder: a de que determinadas posições, mesmo sem autoridade formal sobre decisões clínicas ou administrativas imediatas, concentram capital relacional suficiente para acionar canais informais, abrir portas ou “destravar” situações críticas.
Essa lógica não é inédita. A Qualicorp esteve no centro de investigações que apontaram para a utilização de esquemas de caixa dois em campanhas eleitorais, como no caso envolvendo o ex-governador e ex-senador José Serra, episódio que evidenciou o papel da empresa — e de seus executivos — na articulação entre financiamento político, interesses empresariais e acesso a esferas decisórias do Estado. O fundador da Qualicorp é José Seripieri Junior, preso pelo caixa 2 a Serra e o mesmo que levou Lula em seu jatinho particilar a COP27. A ligação de Jairo Júnior nesse contexto, ajuda a compreender como esse capital relacional foi historicamente construído e mobilizado.
A escolha do interlocutor, portanto, sugere menos improviso do que a ativação automática de uma engrenagem de influência sedimentada ao longo de anos de circulação entre política, negócios e instituições, justamente no momento em que as fronteiras entre o público e o privado na saúde se tornam mais permeáveis. Esse tipo de gesto — procurar quem ocupa um ponto estratégico da rede, e não necessariamente quem detém a caneta — ilumina não apenas o comportamento de Jairinho naquela madrugada, mas também a arquitetura mais ampla de poder que atravessa o caso.
1. O senhor fala sobre um “acordão de conveniências” entre perícia e judiciário, e sugere que houve uma variável política com peso suficiente para selar o destino dos réus. Entendi bem?
Dr. Sami: O caso Henry não aconteceu em um vácuo político; ele colidiu com um projeto de poder muito concreto. Jairinho estava na fila para ocupar uma vaga de conselheiro no Tribunal de Contas do Município (TCM). No Brasil, ser conselheiro não é apenas um cargo; é alcançar o topo do estamento burocrático.
O cargo de conselheiro é vitalício e oferece as mesmas garantias e vencimentos de um Desembargador. Mais do que isso: garante o foro por prerrogativa de função no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Por exemplo, se tivesse assumido, Jairinho não estaria sendo julgado por um juiz de primeira instância em uma vara comum; ele estaria em Brasília, sob o julgamento de ministros.
2. O senhor acredita que o crime foi o pretexto para retirá-lo desse tabuleiro?
A repercussão do crime serviu como o catalisador perfeito para uma “limpeza” no tabuleiro. Retirá-lo dessa fila era de interesse de muitos grupos políticos. Quando o espetáculo midiático se uniu à oportunidade política, o sistema operou com uma velocidade incomum. Vimos uma sucessão de perdas que, aos olhos da análise institucional, revelam o esforço para eliminá-lo definitivamente da vida pública.
Em um intervalo de tempo recorde, ele foi cassado por unanimidade pela Câmara Municipal — a primeira cassação da história daquela casa — e teve seu registro médico (CRM) cassado pelo conselho de classe. O sistema não esperou o trânsito em julgado da justiça criminal para despojá-lo de cada grama de poder que possuía. O “acordão de conveniência” garantiu que, enquanto a perícia entregava laudos precários para sustentar a tese da polícia, o campo político agia para garantir que ele jamais chegasse àquela cadeira vitalícia de fiscalização e pressão. O processo penal, nesse contexto, foi usado como uma ferramenta cirúrgica de ajuste de contas políticas.
3. Isso explicaria a pressa em fechar o inquérito mesmo com lacunas técnicas tão graves?
Dr. Sami: Exatamente. Se você tem um objetivo político maior, o rigor científico da perícia vira um detalhe incômodo. Você não precisa de uma necropsia de quatro horas ou de fotos dos órgãos lavados; você precisa de um culpado rápido para validar a cassação e a prisão. O sistema “adestrado” entrega o resultado que o poder precisa. No Rio de Janeiro, o processo penal é frequentemente usado como ferramenta de ajuste de contas no xadrez político, e o caso Henry foi o cenário perfeito para isso.
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